Gesto de amor chama a atenção para a importância da doação de órgãos

"Com as graças de Deus, meu grande amor me deu uma nova vida", diz Marcos Aurélio Oliveira. “Sabia desde o início, no fundo do coração, que seria eu a fazer a doação”, completa Sandra Luciano da Silva Oliveira

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Sandra Luciano da Silva Oliveira e Marcos Aurélio Oliveira. Foto: Jasleon Humberto

Aos 11 anos de idade, a operadora de caixa Sandra Luciano da Silva Oliveira, hoje com 36, passou por uma cirurgia para remoção das amígdalas. O procedimento foi essencial para que, 10 anos depois, ela pudesse, via um gesto de amor, salvar a vida do seu companheiro, o motorista executivo Marcos Aurélio Oliveira, 38. Plano de Deus? Com certeza. Ele sabe de todas as coisas. E abençoaria e uniria ainda mais o casal.

Vivendo junto com Sandra há quatro anos, Marcos, aos 23 anos de idade, repentinamente se deparou com uma situação delicada: seus dois rins deixaram de funcionar, resultado de uma infecção na garganta, algo raro de ocorrer. Na espera por um transplante, ele passou quatro anos em tratamento renal, fazendo sessões de hemodiálise – que duravam até quatro horas – quase que diariamente. O período também foi de idas e vindas a hospitais pela piora do quadro clínico do rapaz.

Quando o rim falha é preciso encontrar um substituto. Se o tratamento com medicamentos e dieta restrita não funciona, as alternativas para substituir as funções do órgão que filtra o sangue são transplante e diálise. Como encontrar um doador compatível é um longo caminho, resta a última opção.

O irmão e o pai de Marcos se dispuseram a doar um rim. Por lei, a preferência é para pessoas com ligação de parentesco, de outra forma, só com autorização da Justiça. No entanto, o irmão, devido à falta de compatibilidade, e o pai, por causa de problemas de saúde identificados nos exames preliminares, não puderam ser os doadores. Um tio do rapaz era outro doador potencial, mas ele acabou desistindo quando foi alertado pelos médicos das possíveis consequências do transplante renal.

Sandra, que em nenhum momento deixou Marcos de lado, tendo, inclusive, perdido empregos para auxiliar o companheiro no que fosse preciso durante o tratamento, sentia que era ela quem lhe daria um novo rim. “Para que eu pudesse realizar os exames que avaliariam a viabilidade do transplante, os médicos pediram que nós oficializássemos a nossa união. Casamos no Civil e, realizando um sonho, também na Igreja. Depois, consegui autorização judicial para o procedimento. A compatibilidade necessária para o transplante era de 45%, tínhamos 1% a menos, então havia riscos, mas não os temia. Sabia desde o início, no fundo do coração, que seria eu a fazer a doação ao Marcos”, conta Sandra.

Logo que recebeu o rim de Sandra, Marcos urinou em uma única vez 5,5 litros, sinal de aceitação que surpreendeu os médicos. E, se não fosse a cirurgia para remoção das amígdalas feita por Sandra na infância, ela não poderia ter doado o rim ao esposo. “No dia 16 de novembro de 2008, com as graças de Deus, meu grande amor me deu uma nova vida. A Sandra sempre me falou que seria ela a minha doadora. Confesso que tive medo de perdê-la na cirurgia, mas confiei que esse era o destino traçado para nós. Hoje, levo uma vida normal, com algumas limitações, mas nada que se compare ao sofrimento imposto pela necessidade de ficar preso a uma máquina de hemodiálise”, relata Marcos Aurélio.

Mais bênçãos
Antes da reviravolta na saúde de Marcos, ele e Sandra desejavam completar a família, mas ela teve três gestações interrompidas. Depois do transplante renal, apesar dos médicos contrariarem a possibilidade, o casal – recuperado e com a vida reorganizada (depois de dois anos morando fora do Estado, eles retornaram para Aracruz. Nesta volta, ela foi contratada pelo Oriundi Supermercados, onde exerce a função de operadora de caixa atualmente; e ele, depois de ter sido taxista, organizou o grupo de motoristas EA – Executivo Aracruz) – teve um menino saudável, hoje com seis anos de idade. “Deus age em todas as coisas para o bem daqueles que o amam. Isso explica tudo”, ressaltam Sandra e Marcos.

Doação de órgãos
Com sua história de vida, Marcos e Sandra chamam a atenção para a importância da doação de órgãos. “Buscamos incentivar e conscientizar que as pessoas, assim como nós, sejam doadoras de órgãos, um gesto que pode salvar muitas vidas”, explica o casal. “Só quando nós estamos dentro da situação é que realmente sabemos o quanto é importante. Mas, é preciso encarar com mais naturalidade esse tema”, completam.

A doação de órgãos é um ato voluntário e somente a pessoa em vida ou os parentes após sua morte podem decidir o que fazer. Em razão disso, é fundamental fazer o que fez o apresentador Antônio Augusto Moraes (Gugu) Liberato antes de falecer. Ele manifestou em vida o desejo de doar seus órgãos. A família respeitou o pedido, e foi anunciado que 50 pessoas poderiam ser beneficiadas com a doação.

De acordo com informações do Ministério da Saúde, os órgãos que podem ser transplantados são o coração, fígado, pâncreas, os rins e os pulmões. Tecidos e células, como córneas, válvulas do coração, ossos, pele, sangue, medula óssea e cartilagens também podem ser doados. No Espírito Santo, mais de 1,1 mil pessoas aguardam na fila de espera por um transplante de órgãos, segundo dados da Central Estadual de Transplantes. A maior demanda é por um rim.

Doações em vida
Além do rim, parte do fígado, parte do pulmão (lobo) e a medula óssea estão na lista das possibilidades de um doador vivo, segundo especialistas. Pâncreas e pele também podem ser doados em vida, mas é bem raro. Para evitar o risco de comercialização de órgãos, a preferência é sempre de familiares. Em casos sem ligação parental, é exigida uma autorização judicial. Antes da doação, são investigadas compatibilidades sanguínea e do órgão entre doador e receptor. O doador precisa estar em bom estado de saúde para não fazer falta. Por exemplo, quem doar um rim, como fez Sandra, fica com um só e esse tem que estar perfeito. Isso vale também para o fígado e para parte do pulmão.

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