Tupiniquim de Aracruz resgata sua língua nativa

Elo linguístico havia sido perdido em 1960 com morte de anciã; resgate do tupi ajuda a fortalecer a cultura e preservar a memória

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Foto: Acervo Ales – Valter Campanato/Agência Brasil

Por Aldo Aldesco

Em Aracruz, os tupiniquins, aos poucos, recuperam o seu vocabulário, pronúncias e formas de escrita. Esse povo indígena teve o elo linguístico perdido em 1960, com a morte do último membro da tribo – uma anciã que conhecia sua língua original mas deixou de falar o “tupinakã” por temer represálias das autoridades juruás (brancas). Agora, professores indígenas especializados em linguística comandam a retomada do idioma, da cultura e da memória.

“A última indígena que ainda falava a língua tupi no Espírito Santo faleceu em 1960 e não repassou para ninguém o conhecimento que ela tinha. O povo, sem sua língua materna, acaba perdendo parte de sua identidade. Os tupiniquim foram obrigados a deixar de falar sua língua, por conta da repressão do colonizador”, explica Paulo (Henrique de Oliveira) Tupiniquim – Pyatã, em tupi, que quer dizer “pés firmes”.

Projeto desenvolvido pela antropóloga Aline Moschen, doutoranda do Programa de Pós-Graduação de Antropologia Social do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ ) incentiva o indígena a se reinserir na sua forma de se relacionar com sua própria imagem, o que, para ela, vai além de um fotograma estático no espaço e no tempo. Trata-se do “Língua Viva”, um projeto audiovisual com os indígenas de Aracruz. “Sei que ele é insuficiente para o tamanho do problema, que é a tentativa de revitalização da língua. Não posso afirmar que esse projeto vai garantir isso, não vai, mas tem o intuito de dar visibilidade ao tema, aos agentes indígenas que tenham essa vontade”, comenta a pesquisadora.

Faz parte do trabalho realizado com os indígenas a criação de uma galeria virtual e de um podcast com conteúdo sobre a temática apresentado por especialistas. O projeto será adotado por algumas escolas públicas por meio de convênio com a Secretaria de Estado de Educação, informa a antropóloga, que observa a relação entre arte verbal, visual, língua e memória. “Destacar essa relação entre artes visuais e artes verbais é porque existe uma estratégia indígena em curso. Essa língua só foi extinta porque a própria existência no território foi apagada ou diminuída, a língua foi proibida. Então, hoje, ter uma estratégia de visibilidade dessa existência é importante para que as outras coisas emerjam juntas. É necessário demarcar uma presença no território, uma presença visual”.

O projeto tem o indígena como protagonista e produtor. “Os artistas indígenas estão interessados em romper com narrativas indígenas sobre eles e estereótipos sobre o seu modo de vida. Os estereótipos ajudam a gente a perpetuar a negação dos direitos dessas pessoas”, pontua Moschen.

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