Os perigos da cloroquina e hidroxicloroquina – caixa do remédio custa R$ 600,00

Indicados no tratamento da malária, medicamentos têm sido apontados como soluções para a doença causada pelo novo coronavírus. Mas isso ainda não foi provado

0
183
Produção de cloroquina na China. Foto: Divulgação

Prefeitura de Aracruz recomenda hidroxicloroquina, mas reconhece incerteza na cura

Paciente ou familiar é obrigado a assinar autorização reconhecendo os possíveis malefícios

No plano de contingenciamento de recomendação para o uso da cloroquina e a hidroxicloroquina no combate à covid-19, o prefeito de Aracruz, Jones Cavaglieri, e a secretária de Saúde, Clenir Avanza, reconhecem que não há, até o momento, estudos suficientes para garantir a certeza de melhora clínica dos pacientes com covid-19, quando tratados com cloroquina ou hidroxicloroquina.

Cada paciente ou familiar interessado no tratamento com os dois medicamentos é obrigado a assinar uma autorização de livre iniciativa aceitando correr os riscos dando permissão voluntária para que a cloroquina e a hidroxicloroquina sejam utilizados da forma como foi exposto no documento.

No plano da prefeitura é explicado que os dois remédios podem causar efeitos colaterais como a redução dos glóbulos brancos, disfunção do fígado, disfunção cardíaca e arritmias e alterações visuais por danos na retina. Na assinatura da autorização, o paciente é obrigado a reconhecer que não existe garantia de resultados positivos para a covid-19 e que os medicamentos propostos podem inclusive apresentar efeitos colaterais.

Na autorização assinada, o paciente ou familiar declara estar ciente de que o tratamento com cloroquina ou hidroxicloroquina associada à azitromicina pode causar os efeitos colaterais descritos acima e outros menos graves ou menos frequentes, os quais podem levar à disfunção de órgãos, ao prolongamento da internação, à incapacidade temporária ou permanente e até ao óbito.

Na justificativa, a prefeitura argumenta que a cloroquina e a hidroxicloroquina são medicamentos disponíveis há muitos anos para a prevenção e tratamento da malária e também para o tratamento de algumas doenças reumáticas, como artrite reumatoide e lúpus. Investigadores chineses demostraram a capacidade dessas drogas de inibir a replicação do coronavírus em laboratório (in vitro). Um estudo francês mostrou que a eliminação do coronavírus da garganta de portadores da covid-19 se deu de forma mais rápida com a utilização da combinação de hidroxicloroquina e o antibiótico azitromicina, quando comparados a pacientes que não usaram as drogas.

AUTORIZAÇÃO DO PACIENTE OU RESPONSÁVEL
Por livre iniciativa, aceito correr os riscos supramencionados e dou permissão/autorização voluntária para que os medicamentos sejam utilizados da forma como foi exposto no presente termo. Esta autorização é dada ao (à) médico (a) abaixo identificado (a), bem como ao (s) seu (s) assistente (s) e/ou outro (s) profissional (is) por ele selecionado (s). Tive a oportunidade de esclarecer todas as minhas dúvidas relativas ao (s) procedimento (s), após ter lido e compreendido todas as informações deste documento, antes de sua assinatura. Apesar de ter entendido as explicações que me foram prestadas, de terem sido esclarecidas todas as dúvidas e estando plenamente satisfeito (a) com as informações recebidas, reservo-me o direito de revogar este consentimento antes que o (s) procedimento (s) objeto deste documento se realize (m).
Assinatura do paciente ou familiar

Autorização assinada por pacientes não isenta médicos de responsabilidade civil e criminal

A secretaria de Estado da Saúde, contrariando a exigência da Prefeitura de Aracruz de que o paciente ou familiar é obrigado a assinar uma autorização reconhecendo os possíveis malefícios no uso da cloroquina, isentando médicos e o município de responsabilidade em casos adversos, adotou um protocolo para o envio do medicamento aos municípios, alertando que a prescrição da cloroquina, em especial com o uso associado à azitromicina, não isenta o profissional médico da responsabilidade civil e criminal caso ocorra algum evento adverso na evolução clínica dos pacientes que forem fazer uso.

A afirmação é do secretário de Estado de Saúde, Nésio Fernandes, em resposta a um ofício circular encaminhado nesta semana às prefeituras, informando sobre o protocolo que deve ser adotado por aqueles que decidirem por fazer uso da cloroquina e da hidroxicloroquina no tratamento de pacientes com covid-19 e que fizeram o pedido formal de dispensação do medicamento, que é enviado pelo Ministério da Saúde.

O ofício orienta que os municípios publiquem um ato normativo instituindo o protocolo municipal e que façam a previsão de consumo médio mensal do medicamento. O Estado, ressaltou o secretário, “mantém a não recomendação”, mas respeita a decisão dos prefeitos de adotar protocolos distintos, desde que “consiga garantir que a prescrição possa ser acompanhada por uma segurança jurídica normativa desse ato médico”.

Segundo Nésio, “existem efeitos conhecidos muito bem documentados na medicina, especialmente entre a associação da cloroquina com a azitromicina. Essa associação produz um efeito tóxico com uma frequência muito maior do que o uso isolado da cloroquina”. Por isso, a circular recomenda que os médicos realizem “o devido monitoramento cardíaco nos pacientes que farão uso da cloroquina”, já que a autorização dada pelo Conselho Federal de Medicina (CFM), endossado pelo Conselho Regional, e a autorização do Estado, não isenta os profissionais da responsabilidade civil e criminal.

Sem respaldo científico
A posição da secretaria estadual de Saúde de não recomendação da cloroquina com prescrição universal em pacientes leves ou graves foi construída com base na posição de diversas sociedades médicas, entre as quais a Associação Brasileira de Medicina Intensiva, a Sociedade Brasileira de Infectologia, a Sociedade de Pneumologia, a Sociedade Brasileira de Medicina Família Comunidade.

No exterior, Nésio Fernandes citou a Organização Mundial de Saúde (OMS) e a agência reguladora norte-americana FDA, que regula o uso de medicamentos e tecnologias nos Estados Unidos, entre as instituições que suspenderam a autorização e a recomendação do uso universal da cloroquina nos pacientes atingidos pela covid-19.

“Há, a cada semana que passa, um aumento da publicação de estudos que passam a sugerir que não há benefício no uso deste medicamento com pacientes graves ou pacientes com quadros leves da covid-19”.

Entidades médicas não recomendam cloroquina para o tratamento da covid-19

O uso da cloroquina e seu derivado, a hidroxicloroquina, no tratamento de pacientes com covid-19 tem gerado muita repercussão pelo mundo. Alguns estudos feitos em caráter emergencial descartam a eficácia desses medicamentos. Por outro lado, países como o Brasil incluem em seus protocolos a sugestão de uso para alguns tipos de pacientes.

Segundo os especialistas médicos, não é possível substituir a cloroquina por hidroxicloroquina ou vice-versa, pois são substâncias distintas, sendo que a cloroquina base pode ser administrada como difosfato, sulfato ou cloridrato. Já os estudos com a hidroxicloroquina são em termos do sal sulfato de hidroxicloroquina. E alertam que se deve ter muito cuidado para não confundir sulfato de cloroquina e sulfato de hidroxicloroquina.

A cloroquina é um remédio de baixo custo e que pode ser encontrado nas farmácias populares (era, porque nesta semana a caixa do medicamento passou para R$ 600,00). Ela é considerada mais eficaz do que a hidroxicloroquina nos tratamentos aos quais são indicadas. Por ser mais eficiente, a cloroquina também pode gerar mais efeitos colaterais do que a hidroxicloroquina no uso prolongado, principalmente afetando visão e audição, já que ela costuma se alojar em tecidos do corpo como os olhos e o canal do ouvido. Por essa questão, a hidroxicloroquina, que é mais cara, geralmente é utilizada em tratamentos mais longos. Em doenças em que se exige poucas doses, os médicos costumam receitar a cloroquina.

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DE SAÚDE (OMS)
A OMS anunciou a interrupção do uso da cloroquina e hidroxicloroquina em testes para tratamento contra a covid-19. Evidências sobre benefícios do uso de cloroquina ou hidroxicloroquina são insuficientes e já foram emitidos alertas sobre efeitos colaterais. A recomendação é que sejam usados apenas no contexto de estudos registrados, aprovados e eticamente aceitáveis.

SOCIEDADE BRASILEIRA DE INFECTOLOGIA (SBI)
“CLOROQUINA NÃO DEVE SER RECOMENDADA”: a cloroquina é usada em casos graves de covid-19 no Brasil, mas ainda não provou eficácia em estudos. A SBI (Sociedade Brasileira de Infectologia) elaborou um documento em que orienta a não recomendação “de rotina” das substâncias cloroquina e hidroxicloroquina para tratamentos de covid-19. Os estudos clínicos atuais com cloroquina ou hidroxicloroquina, associada ou não à azitromicina, permitem concluir que tais medicamentos, até o presente momento, não mostraram eficácia no tratamento farmacológico de COVID-19 e não devem ser recomendados de rotina, alerta a SBI. “E em alguns pacientes, especialmente os idosos, o problema foi de arritmia e alguns foram a óbito. Por isso estamos alertando, como fazem todas as sociedades científicas do mundo: isso vale aqui, nos EUA, na Europa”, alerta Clovis Arns Cunha, presidente da SBI.

FUNDAÇÃO OSWALDO CRUZ (FIOCRUZ)
RECOMENDAÇÃO GERAL: É NECESSÁRIO GERAR EVIDÊNCIAS SOBRE A SEGURANÇA E EFICÁCIA DA CLOROQUINA PARA TRATAR PACIENTES INFECTADOS COM A COVID-19. A dose diária de cloroquina deve ser inferior a 25 mg/kg, pois uma única dose de 30 mg/kg pode ser fatal. O medicamento deve ser administrado sob estrita supervisão médica em ensaios clínicos e por um tempo curto. É fundamental observar as reações adversas, ter presente as comorbidades dos pacientes e a interação medicamentosa para avaliar cuidadosamente os pacientes para quem a cloroquina pode ser efetivamente prescrita.

CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA (CFM)
O órgão divulgou o Parecer nº 04/2020 no qual estabelece critérios e condições para a prescrição de cloroquina e de hidroxicloroquina em pacientes com diagnóstico confirmado de covid-19. Após analisar extensa literatura científica, a autarquia reforçou seu entendimento de que NÃO HÁ EVIDÊNCIAS SÓLIDAS DE QUE ESSAS DROGAS TENHAM EFEITO CONFIRMADO NA PREVENÇÃO E TRATAMENTO DESSA DOENÇA. Porém, diante da excepcionalidade da situação e durante o período declarado da pandemia de covid-19, o CFM entende ser possível a prescrição desses medicamentos em três situações específicas: paciente com sintomas leves, em início de quadro clínico, em que tenham sido descartadas outras viroses (como influenza, H1N1 e dengue) e exista diagnóstico confirmado de covid-19. Paciente com sintomas importantes, mas ainda sem necessidade de cuidados intensivos, com ou sem recomendação de internação. Paciente crítico recebendo cuidados intensivos, incluindo ventilação mecânica.

AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA (ANVISA)
A Anvisa alerta que a HIDROXICLOROQUINA NÃO É RECOMENDADA CONTRA O CORONAVÍRUS. No Brasil, o remédio é indicado para artrite, lúpus eritematoso, doenças fotossensíveis e malária. O seu uso indiscriminado traz riscos e pode gerar desabastecimento. A Agência não tem recomendação para uso de medicamentos que contém hidroxicloroquina e cloroquina no tratamento da covid-19. As substâncias estão presentes em medicamentos contra a malária, reumatismo, inflamação nas articulações, lúpus, entre outros. “Apesar de promissores, não existem estudos conclusivos que comprovam o uso desses medicamentos para o tratamento da covid-19. Assim, NÃO HÁ RECOMENDAÇÃO, NO MOMENTO, PARA O USO EM PACIENTES INFECTADOS OU MESMO COMO FORMA DE PREVENÇÃO À CONTAMINAÇÃO. Ressaltamos que a automedicação pode representar um grave risco à sua saúde”, diz a nota da Anvisa.

PUBLICIDADE