Os linchamentos

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Imagine-se na Idade Média. Linchamentos morais são comuns. Funciona assim: do nada surge a notícia de que alguém está envolvido com algo bastante ruim. Não precisa de muita coisa. Uma informação qualquer, ainda que de procedência duvidosa, é suficiente. Divulgada freneticamente com aquele tão estranho prazer de fazer o mal em nome do bem, aderem em suas vítimas – muitas inocentes – como uma peste.

As pessoas acusadas viram, do dia para a noite, párias. São excluídas da sociedade, assim como suas famílias. Nem o cachorro da casa escapa. O simples ato de sair à rua passa a ser de natureza temerária, do qual podem resultar sérias agressões ou mesmo a morte.

Propriedades são depredadas. Meios de sustento destruídos. Não importa se conquistados com o suor da labuta – a eles aderiu a praga implacável da maledicência. É tudo fruto do pecado e ponto final.

Eis aí até onde vai o poder de um fuxico maldoso. O jeito, no mais das vezes, é fugir pela noite escura. Largar tudo para trás. Começar uma vida nova em algum outro lugar – se for possível. Se não for, em muitos casos tudo acaba na fuga tenebrosa do suicídio. Ou no isolamento que a depressão tanto corteja.

As pessoas que lincham moralmente seus semelhantes não são, absolutamente, monstros irascíveis. São gente comum, quase sempre praticantes de alguma religião. Membros via de regra respeitáveis das comunidades que integram.

Sim, são pessoas comuns – que não assimilam, porém, uma premissa básica do ato de fazer justiça, qual a de ouvir todas as partes envolvidas antes de concluir um veredito. Assumindo um fanatismo que só o atraso explica deixam de lado a verdade simples de que quase sempre o calor da pressa é inimigo da luz.

Tempos sombrios, esses do obscurantismo. Uma era de intolerância e de crueldade. De dor e sofrimento para incontáveis semelhantes nossos. Mas o que fazer? Afinal, alguns inocentes devem sofrer para que a humanidade evolua. Eis aí um preço perfeitamente aceitável a ser pago – desde que não sejamos nós, nossos parentes ou amigos a pagá-lo.

Agora faça um exercício fascinante: substitua, no primeiro parágrafo, a expressão “Idade Média” por “Internet do Século XXI” e perceba que o texto resultante permanecerá adequado. Mudamos de milênio, mas não de mentalidade. Que coisa triste, raça humana!

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