O que está por trás do não uso de máscaras para a covid-19?

Por Renan Cola

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A Organização Mundial da Saúde (OMS) divulgou, neste mês de outubro, recente estudo que comprova que o uso de máscaras, sejam elas caseiras ou descartáveis, reduz em 78% a possibilidade de uma pessoa ser contaminada com a nova doença infecciosa covid-19. A medida, quando somada a outros métodos protetivos, pode alcançar até 98% de eficiência.

Então, por que é tão comum vermos pessoas de “cara limpa” perambulando por aí? É idoso, que pertence à parcela da população considerada de risco, fazendo compras no supermercado como se nada tivesse acontecendo, pessoas “de bem” jogando futevôlei nas areias da praia de Copacabana e até influenciadora digital dando festas de arromba em seu mundinho particular.

Para a psicanalista austríaca especializada no desenvolvimento psicossexual de crianças, Melanie Klein, tudo não passa de inveja. Quando os indivíduos não conseguem, não querem ou não veem vantagem em enxergar tudo aquilo que é bom e divino dentro de si, passam a cobiçar e a atacar, do lado de fora, todas as maravilhas que permeiam a existência humana.

Em alguns casos mais graves, em que a inveja assume papel de protagonista na vida da pessoa e passa a guiar quase todos os seus movimentos cotidianos, acrescenta Klein, este sentimento está tão escondido e tão arraigado na personalidade que, em vez de ansiar e querer destruir o que “fulano” possui, ele inverte o movimento, trazendo o duelo para um nível mais profundo.

Isto é. Já que “A” dá valor à vida (usa máscaras de proteção contra o novo coronavírus) e eu morro de inveja dessa atitude, já que não a faço, em vez de querer destruí-lo (e me livrar da inveja), por que não eu mesmo não fazer uso do acessório? Assim, ao não mais existir, eu elimino, em uma tacada só, a minha própria inveja e tudo que vem de bônus com ela.

Aí, você já viu: “vou-me embora, mas levo comigo a capacidade para criar que ambiciono nos meus colegas de profissão. Parto desta para melhor, mas ganhar dinheiro, que é algo que não consigo, mas todos conseguem, sumirá do meu campo de visão. E, se for pra morrer, que morramos juntos. Afinal, lá no inferno, somos iguais, e eu nunca serei menos que você”.

Exemplificações deixadas de lado, é na incapacidade de valorizar a nós mesmos que reside o cerne do apocalipse “covidiano” que vivemos. A máscara, retifica a autora, é somente um símbolo que representa como o ser humano se coloca em segundo plano, disfarçando, sob as múltiplas camadas de tecido, a sua capacidade de encontrar gratidão naquilo que produz.

E será que tamanho olho gordo tem solução? É claro que sim. Em primeiro lugar, nesta quarentena, em vez de julgar o coleguinha desmascarado que dá “close errado” a céu aberto, dê o exemplo. Ao sair de casa, independente de onde vá, higienize suas mãos, ponha a sua máscara e sinta este movimento como um ato de amor próprio: único e exclusivo para você.

Por que motivo ficar assistindo às lives alheias na internet? Tire um tempo para encontrar aquela conexão tão especial consigo mesmo que perdera anos atrás: leia um livro que gosta, pense nos sonhos que ainda quer executar, escreva no papel as atividades que realizará no seu dia, ligue para uma pessoa querida e diga a ela o quanto é importante em sua trajetória.

E por que não encontrar um lugar de perdão? Feche os olhos, pense no seu passado de forma carinhosa, visualize todo o caminho que fora percorrido até aqui e as pessoas que estiveram lá para ajudá-lo. Idealize-se ainda pequenino de mãos dadas com os seus pais. Perdoe-os sentindo que é ao se desculpar com eles que encontrará a verdadeira paz de espírito.

Por fim, esteja aberto a ajudar. Quando nos doamos aos que necessitam de apoio, um manto de conforto e afetividade é depositado sobre a frágil estrutura do psiquismo, amenizando as odiosidades causadas pelo “não ver”. Independente das mazelas que a pandemia trouxer pela frente, teremos uma só certeza: sãos, somos e seremos sempre muito mais fortes.

*O autor é psicanalista da É Freud, Viu?

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