O colapso

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Convido-o, humildemente, a um exercício mental. Imagine-se, durante alguns instantes, dentro do longo corredor de dado hospital. À sua frente dezenas de doentes – crianças, jovens e velhos – sofrem e gemem espalhados pelo chão ou em macas improvisadas.

A agonia é pavorosa. Alguns estão ali há horas, outros há dias – ou mesmo há semanas. Esqueça o “jeitinho” ou até eventual recurso a algum juizado – afinal, não há mesmo estrutura que os comporte. Estão condenados a ali permanecerem até que lhes alcance a cura milagrosa ou a morte.

As condições de higiene são degradantes. Os insetos circulam livremente pelo ar impregnado daquele odor fétido derivado das indisposições dos pacientes. O cenário é, além de dantesco, nauseante.

Vez por outra percorre o local algum profissional da saúde. À semelhança do Criador vai decidindo quem morre e quem vive. Estes receberão alguns dos poucos medicamentos disponíveis e aqueles um prosaico soro com sonífero – que encontrem a felicidade embalados pelo sono. Fico a pensar no tributo cobrado à saúde mental destes profissionais.

Do lado de fora do hospital inquietam-se os entes queridos daqueles doentes. As visitas não são possíveis e as informações saem a conta-gotas – afinal, faltam servidores do lado de dentro. Só lhes resta ficar lá. Daquele jeito.

A enfermaria do hospital, às voltas com estoques de suprimentos praticamente exauridos, afixa diante do balcão uma lista do que está faltando. De luvas a máscaras, de algodão a seringas, praticamente tudo falta. A saída é improvisar – ainda que ao custo da morte do paciente ou da contaminação do profissional da saúde.

Encerra-se um turno. Realiza-se a contagem dos mortos e remoção dos seus corpos, abrindo-se vagas para outros doentes que aguardam amontoados dentro de ambulâncias.

Algum desavisado poderia pensar que as linhas acima descrevem o drama vivido pela humanidade ao longo da epidemia causada pelo vírus Covid-19, a partir da aurora de 2020. Nada mais falso!

Aí está, sem retoques, a descrição do que ocorre desde que me entendo por gente em vasta parcela dos hospitais públicos deste planeta. A única diferença é ser a triste rotina aqui descrita imposta apenas aos miseráveis, desprovidos dos caríssimos planos de saúde – em um mundo no qual tantos dizem ser a saúde uma prioridade!

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