Nossa luta

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Na aurora de 2020 a conceituada Universidade de Cambridge entregou à humanidade um sério alerta na forma de um relatório denominado “Satisfação Global com a Democracia”. Ao término de longa pesquisa de opinião pública (quatro milhões de consultas entre 1973 e 2020) os pesquisadores detectaram um fenômeno preocupante: a maioria da população mundial está desiludida com a democracia.

Em nível global, o índice de insatisfação subiu de 47,9% para 57,5% desde meados da década de 1990. Um dos autores do estudo, Dr. Roberto Foa, bem sintetizou o estado de coisas: “a democracia está doente”. Observo que este não é um quadro relativo a governos, mas, antes, ao sistema que os gera. Houve o cuidado de isolar-se dos resultados questões momentâneas ou paroquiais.

Qual a explicação? Há várias, claro! Mas chamou-me a atenção um fator especialmente realçado pelo historiador David Olusoga, em artigo publicado no jornal britânico The Guardian: “quando os bancos tiveram problemas durante a crise econômica de 2008 receberam ajuda – e o resto de nós, austeridade”.

Eis aí uma dura verdade. Pelo planeta afora temos visto governos legitimados pelo voto popular conferindo benesses a grandes empresas e reduzindo absurdamente a qualidade e a quantidade dos serviços a serem prestados pelo Estado – enquanto isso, a reboque, começam a subir descontroladamente os níveis de pobreza e desigualdade.

Faço rápida pesquisa em meu banco de dados. Retorno a 25 de outubro de 1999, quando a conceituada revista Time publicava uma séria frase de Mohammed Tariq, um motorista de taxi paquistanês de apenas 22 anos de idade: “nós não queremos democracia. Queremos apenas lei, ordem e preços estáveis”.

Vou à janela. Vejo o mundo mergulhado em denúncias de corrupção e optando pela impunidade mais acintosa. Contemplo a epidemia então instalada no planeta – e os estados completamente despreparados, com sistemas de saúde falidos e estruturas sucateadas. Uma vez mais começam as discussões sobre benefícios e resgates para alguns poucos – ao custo da austeridade para muitos.

A democracia não nos foi presenteada. Foi conquistada. Daí nosso dever maior de provar ser ela compatível com o desenvolvimento econômico e social – e incompatível com a corrupção. Este não é um dever apenas cívico – é, acima de tudo, espiritual.

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