João Neiva: a história do Mata 4

No "Mata 4", que tinha até sinuca, a filosofia era esta: antes do amor, taco fora e bola dentro. Durante o amor, taco dentro e bola fora

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A famosa “Boite Paloma”. Foto: Reprodução/Arquivo Pessoal

Sem nenhum registro no Google, a não ser esta definição que consta na Desciclopédia (uma enciclopédia livre de conteúdo e de teor jocoso, com humorismo ácido), a FOLHA DO LITORAL recebeu este artigo enviado por um leitor, mas contestado em sua veracidade pelo advogado Apolônio Cometti, natural e residente em João Neiva, sobre a história da localidade de Mata 4, em João Neiva. A definição da Desciclopédia é agressiva: “Mata 4: onde todo dia morria 4 de uma só vez. Onde havia o único puteiro da cidade (que agora pertence a Ibiraçu), e que tem a maior concentração de Aids no mundo”.

Mas não é bem assim. Segundo o relato (verídico ou não muito, mas que resgata a história do lugar) de um autor que prefere o anonimato, intitulado BOITE PALOMA… As empresas que vieram de fora e se instalaram em João Neiva e adjacências, no auge do extrativismo madeireiro desta região, trouxeram a movimentação de muita gente de outros lugares. No fim dos anos 1960, para atender a esse público, sedentário por diversão, inauguraram um prostíbulo na beirada da linha férrea, na altura de Caboclo Bernardo. Algumas casas foram construídas próximo ao local do antigo “shoot” da Belgo Mineira, onde as moças atendiam.

Acredito ter sido pouco antes da passagem do asfalto, quando um grave acidente automobilístico entre um carro de passeio e uma composição de vagões, que atravessavam a estrada, ceifou a vida de quatro pessoas desta região. Depois desse acidente, o referido prostíbulo passou a ser chamado de “Mata 4”.

Foi nesta época que um empresário resolveu que o tal bordel deveria sair dali, pois além de ficar numa localização perigosa, com muito fluxo de caminhões, já havia também a aproximação da civilização, fato que começava a afastar a clientela do bordel, cujo sigilo era imprescindível.

Ele resolveu então adquirir um terreno próximo, no passado pertencente a um senhor da família Baioco, resolvendo assim transferir o bordel para aquela localidade. O novo local era estratégico, escondido, praticamente um buraco, localizado do lado direito, sentido Ibiraçu a João Neiva, às margens do rio Piraquê-açu. Propício para aventuras escusas, principalmente os casados.

No local, de difícil acesso, foi feito uma grande terraplanagem e melhorias no acesso. Por volta de 1975 já havia algumas edificações bem rudimentares, prontas para locação. Em 1980 já apareciam algumas construções de alvenaria. Foi nesta época que outro empresário construiu a famosa boate “Paloma”, que era a maior edificação do local, com cerca de 300 m² construídos.

Era na “Boite Paloma” que se podiam encontrar as mocinhas menos piores. O local era incrementado. Tinha um grande salão principal à luz vermelha, uma pista de dança no centro, um globo central e um palco ao fundo com cortina, para apresentações, incluindo “pole dance”. Logo na entrada ficava a indispensável Jukebox, onde se podia escutar clássicos como “Je T’aime Moi Non Plus”, do casal francês Serge Gainsbourg e Jane Birkin, traduzida como ‘Eu te amo, Eu te amo/Sim, eu te amo/Eu não mais/Oh, meu amor’, sucesso meloso que foi proibido pela Censura da ditadura militar e, sem exageros, a discografia completa de Amado Batista. Nos fundos e na parte de cima ficavam os quartos. Próximo à entrada ficava a bilheteria, um bar externo e um local para lanches.

O nome, Paloma, foi escolhido pelo próprio empresário. Foi uma homenagem que fez a uma mulher de nome Paloma, com quem se relacionou e viveu um de seus maiores amores. Não há paixão mais egoísta do que a luxúria. Azar no amor, sorte nos negócios. Boa parte dos jovens da década de 70 e 80 de Ibiraçu, João Neiva e Aracruz frequentavam o “Mata 4”. Era um point de diversão, não necessariamente point para orgia sexual.

As outras casas eram inferiores. Algumas delas possuíam mesas de sinuca onde as moças e os rapazes se divertiam. A antítese perfeita. ‘Antes do amor, taco fora e bola dentro. Durante o amor, taco dentro e bola fora’. As moças, bem instruídas, ficavam pedindo o tempo todo, isso era regra geral. Impressionante a capacidade de mimetismo que essas moças possuem nesses ambientes de ar etéreo. À medida que você ia se embriagando, elas iam de Dercy Gonçalves a Julia Roberts , num intervalo de apenas três cervejas.

O “Mata 4” era muito frequentado durante a madrugada, principalmente depois dos bailes de Ibiraçu e João Neiva. Acabavam os bailes e os jovens, sedentários, encontravam no “Mata 4” o refúgio. Era o único lugar aberto para consumir álcool no restante da madrugada.

Já dizia o poeta Guilherme Arantes “… O mundo vive à noite, todo mundo espera tudo da noite. Nela, tudo pode…”. Mas, nem tudo são flores! Mulheres em disputa e a ingestão de bebida alcoólica é uma combinação perigosa. Volta e meia acontecia alguma briga, a maioria com arma branca. Quando a polícia chegava, a batida era geral. Infelizmente, brigas e assassinatos também eram marcas desses ambientes. Alguns casos engraçados aconteceram no “Mata 4” e ficaram marcados. O autor separou dois:

1 – No final dos anos 70, quando os padres combonianos ainda se instalavam nessa região e os fiéis eram mais ortodoxos, o pároco de Ibiraçu começaram a perceber que a missa aos domingos à noite estavam sendo frequentadas, em sua maioria, por mulheres casadas e que a igreja estava ficando demasiadamente vazia. Ao questionar as fiéis, ouviu de uma delas que os maridos estavam optando por frequentar a paróquia de João Neiva, pois lá poderiam aproveitar para se confessar, já que os padres daquela igreja não iriam reconhecê-los. Tempos depois vazou na sociedade que os maridos estavam utilizando este argumento como estratagema para, na volta, dar aquela paradinha no puteiro, garantindo assim a diversão dominical. Se tudo aquilo foi penitência, que voltem os combonianos. E que volte o “Mata 4”

2 – Outra situação aconteceu com um grupo de rapazes recém-casados de Ibiraçu que, certa feita, resolveu se aventurar no “Mata 4”. Lá pelas altas da noite, quando já haviam barbarizado por todo “randevu”, desabou um imenso temporal. Um caminhão que estava no local resolveu tentar a sorte e subir a rampa, única entrada e saída do local, mas acabou chafurdando na lama, obstruindo a passagem. Naquela noite , todos que estavam no local só puderam sair no outro dia, quando o reboque chegou e o arrebol já se mostrava imponente no céu. Não tenho aqui a relação do número de divórcios ocorridos em Ibiraçu, relativos àquele ano de 1985. Mas percebi um aumento substancial no Fórum de nossa Comarca e muito advogado por aí andando de carro novo. Já se passaram 32 anos da emancipação política de João Neiva e até hoje muita gente ainda protesta na cidade a perda de Caboclo Bernardo. Só não vejo ninguém de lá reclamando que perdeu o “Mata 4” para Ibiraçu. Já o pessoal de Ibiraçu vive comemorando o fato de ter conquistado Caboclo Bernardo, mas não vejo ninguém da cidade comemorando a conquista do “Mata 4”. É como o filho ingrato que se esquece de agradecer a quem tanto lhe serviu. Saibam que, mesmo neste caso, Deus está vendo. O “Mata 4” foi desativado na primeira década do século passado e todas as construções foram demolidas. Em 2010, ao voltar de uma viagem de Porto Seguro, passando em frente à entrada do antigo bordel, avistei uma placa onde se lia: “Vende-Se”. Parei, tirei uma foto, coloquei na internet e protestei. “Existem a beleza que excita, a que comove e a que satisfaz: a melhor é a última. Triste pela venda do nosso Mata 4”.

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