Gratidão à vida. A história da artesã e assistente de veterinária Reilla Santos

Reilla conta que até o presente momento todos os seus sonhos estão sendo realizados e ela continua a sonhar

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A artesã e assistente de veterinária Reilla Santos. Foto: Beth Vervloet

Quando somos gratos emanamos uma energia que muda tudo dentro de nós e, consequentemente, ao nosso redor. Que o diga a artesã e assistente de veterinária Reilla Silva dos Santos, de Aracruz. Filha de uma costureira e um pedreiro, ela teve nos pais a inspiração para o artesanato. “Pegava os retalhos que sobravam das costuras da minha mãe para fazer roupinhas de boneca. Assim teve início minha relação com os trabalhos manuais”, lembra Reilla. No entanto, foi durante a experiência como hippie, viajando o Brasil com esse estilo de vida, que a artesã descobriu a vocação para confeccionar hoje os majestosos acessórios (brincos, braceletes, colares e pulseiras) e o filtro dos sonhos que traduzem toda sua gratidão à vida.

Estudiosa, Reilla sempre se destacou na escola. Na adolescência, queria mais liberdade para as descobertas típicas da faixa etária; ansiava por ‘conhecer o mundo’, mas seu desejo quase sempre esbarrava na superproteção dos pais. Isso de certa forma a fez desejar sair de casa, o que, meio sem querer, acabou acontecendo quando ela teve a oportunidade de viajar para a Bahia, onde prestaria vestibular para Medicina Veterinária, tamanha era a ligação afetiva com os animais de estimação. O objetivo, contudo, não foi alcançado frente à dificuldade da jovem em conciliar o cursinho pré-vestibular com a conclusão do colegial.

Depois da tentativa de passar no vestibular, e decidida a ingressar no movimento hippie, Reilla foi definitivamente colocar em prática o desejo que carregava consigo desde sempre; viver seu anseio da adolescência. Mesmo sabendo que desapontaria os pais, a jovem não hesitou em ‘conhecer o mundo’. “Queria parar de levar uma vida de forma automática para sentir o clima de liberdade e de companheirismo do ‘mundo hippie’. Então, decidi sair de casa e pegar a estrada com uma amiga. Foi um choque para os meus pais, que sofreram muito com essa minha atitude. Eu também sofria bastante, distante deles, mas sentia que precisava daquilo. Segui a vontade do coração e da alma. Vivi uma experiência única. Olho para trás com imensa gratidão. Apesar dos contratempos, do que fiz minha família passar, faria tudo de novo, pois minhas escolhas me levaram a conciliar hoje duas grandes paixões: trabalhar com animais de estimação e com artesanato”, enfatiza.

A vida como Hippie
De Aracruz, Reilla e a amiga seguiram para Vitória. Depois viajaram com alguns conhecidos hippies para Campos dos Goytacazes e Macaé, no Rio de Janeiro. Nesta última parada, a amiga resolveu voltar para casa. Reilla, contudo, queria ir além. E a partir de uma nova amizade, construída com uma argentina, ela seguiu viagem, ‘vivendo na BR’, como costuma dizer.

De carona, as duas seguiram para Belo Horizonte (MG), onde comprariam matéria-prima para confecção das peças artesanais que vendiam nas ruas. De ‘BH’, as amigas conseguiram uma nova carona, desta vez para Vitória. E nesse retorno ao Espírito Santo, Reilla, mesmo temendo uma rejeição, resolveu visitar os pais em Aracruz, que aceitaram recebê-la, sendo bastante emocionante o reencontro deles.

Na passagem por Aracruz, Reilla conheceu o companheiro com quem conviveria por 13 anos, seguindo a viagem pelo país. “Minha felicidade era ser livre. Mas, não é bem assim. Aonde quer que você vá e qualquer que seja o grupo que você integre haverão regras e normas para se seguir. Foi aí que comecei a lidar com as dificuldades para buscar e viver aquilo que acreditava. Eu e os demais hippies morávamos na rua. Chegamos a pedir comida e a dormir debaixo de marquises, pois nem sempre era possível comprarmos comida e armarmos nossas barracas. Nosso sustento vinha da venda das peças artesanais que confeccionávamos. Quando chegávamos a um local em que as pessoas valorizavam nosso trabalho, até dava para alugar um quartinho. Apesar de tudo, de todo o preconceito que o hippie enfrenta na sociedade, o clima sempre era de festa entre nós”, conta.

Cada semana em uma cidade diferente, Reilla descobriu diversos pontos turísticos do Brasil, bem como as diferenças sociais gritantes que assolam o país. Entre uma parada e outra, contudo, foi possível se motivar com a generosidade das pessoas. “Conheci cidades lindas, sobretudo, nas regiões Norte e Nordeste. Lugares que dificilmente conheceria não sendo hippie. Em cada cidade, havia quem não gostasse das peças artesanais que produzíamos, mas admirava o trabalho realizado vindo a contribuir expressivamente mesmo sem levar nada. Aquilo era muito gratificante, dava vontade de não parar de viver daquela forma. Você se sente um tanto mais humano, aprende a se colocar no lugar do outro e ter mais empatia. É o tipo de coisa que a gente carrega para o resto da vida”, recorda a artesã, acrescentando que “certa vez, em Vitória mesmo, uma rapaz bem vestido, de terno e gravata, sentou-se no chão conosco e disse que aquilo que estávamos vivendo era o sonho dele. Exemplos assim me mostravam que estava fazendo a coisa certa comigo mesmo. Se não tivesse tido a coragem de largar tudo, talvez, seria uma pessoa infeliz hoje”.

Gravidez e novos planos
Reilla conviveu com o companheiro que conheceu em Aracruz por 13 anos. E, nesse meio tempo, ela engravidou, tendo, com oito para nove meses de gestação, retornado ao município de origem, onde deu à luz um menino. Quando o filho completou seis meses de vida, a artesã voltou para a ‘vida hippie’ com ele e seu companheiro. A princípio, eles começaram a expor os artesanatos que confeccionavam nas ruas de Aracruz mesmo. Certo dia, no entanto, conselheiros tutelares os acusaram de estar colocando o filho em situação de risco.

“Não aceitei aquilo. Meu filho estava confortável no carrinho de bebê e carregava comigo uma nécessaire com itens básicos e todos os medicamentos possíveis para ele, que não estava abandonado como uma conselheira tutelar insinuou. Discutimos e acabamos conduzidos à delegacia por desacato. Depois, em cumprimento de pena alternativa pelo episódio, demos aula em um projeto social ao longo de três meses, o que não foi uma má experiência. O que dificultou foi o fato de não podermos mais levar nosso filho conosco para a BR. Meu companheiro passou a ir sozinho e eu ficava em casa, logo nossa renda com o artesanato caiu. Foi então que nossos planos foram modificados”, conta Reilla.

A artesã precisou garantir um trabalho fixo, tendo logo conseguido uma vaga em um escritório de contabilidade. Ela começou organizando arquivos e, não demorou muito, já estava atuando como assistente de Departamento Pessoal. Relutante, o companheiro de Reilla seguiu por cerca de um ano trabalhando nas ruas com artesanato hippie, até que ele entendeu que não daria para viver da atividade, vindo também a conseguir uma colocação no mercado de trabalho.

Passados cinco anos, Reilla sofreu uma decepção no trabalho e pediu demissão. Sem saber o que seria da sua vida dali para frente, ela pediu clareza a Deus. No dia seguinte, ao ir realizar o exame médico demissional, a artesã encontrou uma amiga que comentou que seu chefe buscava alguém para ficar na recepção da Clínica Veterinária onde trabalhava. O chefe em questão era o médico veterinário Dr. André Engel Vieira, proprietário do Centro Médico Veterinário (CMV), onde Reilla trabalha há seis anos. Para quem pretendia prestar vestibular para Medicina Veterinária, o novo emprego veio muito a calhar, foi a união entre a necessidade daquele momento e a vontade de trabalhar com animais de estimação.

“Costumo dizer que tudo é completamente perfeito, todos os acontecimentos. Às vezes a gente não entende porque certas coisas acontecem; não entende porque fazemos planos e eles não saem como havíamos planejado, surgindo sempre alguma coisa para atrapalhá-los. Contudo, nada está atrapalhando e sim ocorrendo da maneira que tem que ocorrer, pois Deus tem um propósito para cada acontecimento. Sendo assim, não posso imaginar que Deus não teve propósitos para o que passei. São nesses momentos onde tudo parece conspirar contra nós e que nos vemos num beco sem saída, que devemos ativar o poder da gratidão”, ressalta Reilla.

Novos tempos como artesã
Com os empregos fixos e precisando lidar com problemas pessoais, Reilla deixou o artesanato de lado. Isso até pouco tempo, porque há cerca de um ano, ela, bem, mental e espiritualmente falando, se reencontrou com seu dom artístico para os trabalhos manuais. Motivador, o novo companheiro da artesã teve papel importante nesse processo, fazendo-a enxergar que não poderia deixar esse belo dom adormecido.

Hoje, Reilla usa as horas vagas para confeccionar diferentes peças artesanais. São brincos, braceletes, colares e pulseiras, que com o tempo ganharam um toque de requinte e, em simultâneo, de sofisticação, exigindo técnicas mais elaboradas e novas matérias-primas, tudo de acordo com a nova forma de pensar da artesã. “Meu pensamento evoluiu. Antes utilizava basicamente sementes, hoje cristais; pedras e miçangas diferenciadas são carro-chefe dos meus trabalhos”, explica a artesã, que além dos acessórios femininos, produz um objeto especial pelo qual se apaixonou: o filtro dos sonhos, um antigo amuleto nativo americano que, segundo lendas, tem o poder de purificar as pessoas e libertar da escuridão e dos sonhos ruins.

A venda das peças é feita através de redes sociais. “Não tinha planos para isso. Meio que aconteceu por acaso, quando coloquei a foto de um dos meus filtros dos sonhos no meu perfil do Facebook. As pessoas amaram, tive um retorno muito bom e, ainda que sem muita confiança, passei a postar fotos das peças que produzia e as vendas cresceram expressivamente. Já tive encomendas de pessoas de outros estados, inclusive. Tem sido marcante essa experiência, tanto que criei uma loja virtual – a Art Magia Artesanatos”, comemora Reilla, que é membro da Associação dos Artesãos de Aracruz (ARTEARA), a qual a fez realizar recentemente um grande desejo: expor suas peças na ArteSanto, a Feira Nacional do Artesanato do Espírito Santo, realizada na Praça do Papa, em Vitória.

“As coisas têm acontecido na minha vida de forma surreal e sou mesmo muito grata. Acredito que você é o que você emana. A energia que você emana para o universo volta para você. Então, é preciso ser positivo. E a Gratidão ajuda a limpar tudo o que está atrapalhando nossa vida em qualquer nível que seja”, salienta a artesã.

Plano futuro
Reilla conta que até o presente momento todos os seus sonhos estão sendo realizados e ela continua a sonhar. “Ainda terei minha própria loja de artesanato, onde as pessoas poderão sentir toda a minha essência, bem como o amor e o carinho pelo que faço”, revela a artesã, compartilhando um pensamento com o qual, sem dúvidas, chegará lá: “se você possui algum sonho que tenha tudo a ver com seu propósito da alma, pode ter certeza que o Universo trará a você o que desejar, no tempo certo, no tempo de Deus. O segredo então é ter confiança, fé, perseverança e gratidão. Gratidão a cada passo dado; a cada erro e acerto; a cada contratempo e avanço, sem jamais desistir e deixar de confiar que tudo tem seu tempo para ser”.

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