Estado e povo

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Planeta Terra, 2020. Instalou-se pavorosa pandemia no seio da humanidade. Dentre as medidas mais eficazes destacavam-se o isolamento social e a aplicação de testes para imediata identificação dos infectados. Ganhar-se-ia tempo até a descoberta de uma vacina.

Mas, e chego à realidade do Brasil, como isolar-se alguém nos cinturões de miséria que cercam nossas grandes cidades? Eis aí uma questão crucial, considerada a necessidade de interromper-se o contágio.

Em meio aos inúmeros e sérios desencontros verificados diante deste quadro, que tantas vidas absurdamente ceifaram, encontrei um raio de luz, noticiado pela séria BBC no dia 1º de maio de 2021. Eis o título da matéria: “As lições da favela que reduziu mortes em 90%”.

Seguia-se a descrição de um projeto implementado na favela da Maré, no Rio de Janeiro. Através dele provou-se que, “com alimentação e suporte, é possível, sim, fazer isolamento numa favela. O resultado foi uma redução de quase 90% nas mortes por covid após 15 semanas de implementação”. Acrescento: mortes causadas por uma doença para a qual já existia vacina há quase um semestre, considerada a data da publicação da matéria.

Um dos infectologistas envolvidos no projeto declarou que mesmo “no auge da crise no Brasil a mortalidade por covid na favela continua a ser muito menor que a média de mortes na cidade do Rio de Janeiro”. Apontou-se como exemplo o caso de um morador de nome David, que morreria de fome se cumprisse o isolamento. Mas ele “recebeu um oxímetro e um kit com produtos de higiene, passou a ter acompanhamento médico por telefone, teve acesso a sessões online com uma psicóloga e, o mais importante, teve o que comer pelos 14 dias que passou isolado”.

Chamou-me a atenção certa declaração de uma das coordenadoras do projeto: “Nós mostramos que é possível fazer entrega de alimentos e testes, fazer o isolamento, testagem em massa e idealizamos toda a logística. Mas é responsabilidade do Poder Público fazer isso. Estamos fazendo esse trabalho por conta da ausência do Estado”.

Nos idos de 1979 ocorreu uma grande enchente no Espírito Santo. Diante do abandono das vítimas pela administração pública o então Arcebispo Dom João Batista da Mota e Albuquerque nos legou uma frase histórica: “só o povo salva o povo”. Pois é. Fiquei a pensar nela.

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