Covid-19: a doença com a qual, efetivamente, vivemos um dia de cada vez

Por Gabriel Facini Zucoloto

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Gabriel Facini Zucoloto. Foto: Arquivo Pessoal

Eu, acadêmico de Medicina, faltando menos de um ano para me formar, aceitei estar na linha de frente do combate à covid-19. Claro que existem as consequências, como o risco de contaminação e estar longe da minha família presencialmente, mas foi uma escolha e agora estou me doando, fazendo o meu melhor para este momento.

Todos os dias acordo antes das 6h para estar no hospital às 7h e iniciar o plantão. São plantões puxados, tanto físico quanto mentalmente. Tenho certeza de que esse período de estágio me fez crescer, e quando olho para trás, meu primeiro dia, e comparo com o agora, percebo as grandes mudanças que já aconteceram e o crescimento que tive no âmbito acadêmico e profissional.

O que quero ressaltar, também, é o crescimento exponencial que tive na humanização. A prática da medicina exige profissionalismo, competência, humanização, empatia. Tudo isso, neste período que estamos vivendo, teve que ser elevado. Todos os dias me deparo com situações extremas, seja positiva, como a alta de um paciente, ou negativa, como a notícia de uma piora clínica ou até mesmo de um óbito.

O olhar dos familiares e até mesmo o nosso olhar nunca disse tanto. São olhos cheios de esperança, que comemoram um dia a mais. Ou então choram com a situação negativa daquele dia. Sim, é uma oscilação de sentimentos.

Hoje, ao examinar cada paciente, coloco-me como uma pessoa que faz parte da vida dele. Quando passamos o boletim com as notícias para as famílias, tento ao máximo expressar o que eles estão sentindo. Quando estão conversando, se torna mais fácil, porém, quando estão entubados, passamos para a família a situação em que o paciente está.

Essa doença, infelizmente, não permite que o familiar veja seu ente querido, pois há um risco muito grande de contaminação. Com isso, nós, que estamos na assistência, fazemos essa ponte entre a família e o paciente. E quando eu digo que não conseguem ver seus familiares, não são um ou dois dias, é coisa de semanas ou até mesmo meses.

Meu objetivo com esse relato é mostrar a situação em que realmente estamos vivendo. Situação atípica que vivenciamos agora e que no futuro estará nos livros dos estudantes. Por isso, como alguém que está na linha de frente e que vê todos os dias o que está acontecendo, eu peço: cuidem-se! Cuidem de vocês mesmos, de seus familiares e sejamos empáticos. Colocar-se no lugar do outro nunca foi tão necessário! Que Deus nos abençoe e nos conduza neste momento em que estamos vivendo.

Natural de Aracruz, o autor é acadêmico de Medicina e está atuando no combate à covid-19 em um hospital da Grande Vitória.

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