Comerciantes de Aracruz pedem fim das restrições para lojas não essenciais

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Maioria dos estabelecimentos considerados não essenciais fecha nos dias ímpares do calendário. Foto: Jasleon Humberto (01/07/2020)

Iniciado nesta semana em Aracruz, o rodízio para a abertura dos estabelecimentos que não são considerados essenciais aumentou a indignação de seus proprietários e gestores, que são os mais afetados pelos decretos publicados em razão da pandemia do novo coronavírus. Forçados a fechar as portas com base nos dias ímpares e pares do calendário, eles temem que a situação acabe sufocando os negócios e por entenderem que a medida não irá frear o avanço da covid-19, pedem a abertura integral do comércio não essencial. Afinal, dependem das vendas do dia a dia para que eles possam se manter, assim como seus colaboradores, fazendo a roda da economia girar.

O fechamento alternado do comércio não essencial foi imposto pela Prefeitura de Aracruz depois que o risco de transmissão do novo coronavírus no município passou de moderado para alto no Mapa da Gestão de Risco, atualizado semanalmente pelo Governo do Estado para ações qualificadas de enfrentamento à covid-19.

Comerciantes ouvidos pela reportagem da FOLHA DO LITORAL são unânimes em dizer que o esquema de rodízio, além de não reduzir o fluxo de pessoas nas ruas, provoca aglomerações ao ponto em que desfavorece o isolamento social, dado que o cliente que vai ao comércio no dia ímpar terá que voltar no dia par para terminar de resolver suas demandas e vice-versa.

A prefeitura chegou a limitar também o horário de funcionamento de distribuidoras de gás de cozinha, supermercados e outros estabelecimentos comerciais essenciais no Decreto n° 38.070, que entrou em vigor no último dia 25. Contudo, mediante notificação do Ministério Público Estadual (MPES) para que o município seguisse a legislação estadual relativa às medidas de prevenção e combate ao novo coronavírus, a administração municipal mudou sua decisão um dia depois, quando publicou o Decreto n° 38.085, permitindo o funcionamento regular e habitual dos segmentos essenciais. O comércio não essencial, por sua vez, passou a funcionar dia sim, dia não (exceto sábados, domingos e feriados), de 10h às 16h. Antes, ele estava abrindo de 12h às 18h, de segunda a sexta-feira.

Em reunião com diretores e conselheiros da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) na última sexta-feira 26, o prefeito Jones Cavaglieri disse que, no momento, o principal foco é reduzir o contágio pelo novo coronavírus e o número de óbitos em decorrência da covid-19, conscientizando as pessoas sobre o risco de contaminação. Dessa forma, a situação do município voltará a ser ‘moderada’ no Mapa da Gestão de Risco do Estado, podendo ocorrer menos restrições ao comércio não essencial.

“Quem gera emprego e renda não deveria ser tão prejudicado”, diz comerciante

Geanes Rodrigues Goularte

Embora seu empreendimento esteja funcionando em horário regular e habitual por ser considerado essencial, a empresária Geanes Rodrigues Goularte, da Agronorte, se solidariza aos comerciantes que não podem abrir as portas normalmente. “Seja por decreto do Governo do Estado ou da Prefeitura de Aracruz, limitar o horário de funcionamento ou fechar os comércios como forma de evitar a disseminação da covid-19 não resolve o problema. Não é o comércio que está causando a proliferação. Os comerciantes têm tomado todos os cuidados desde o início da pandemia. O que ocorre é a falta de conscientização; a falta de barreiras sanitárias nas entradas do município; a falta de protocolo preventivo eficaz; são as extensas filas do lado de fora das agências bancárias e correspondentes bancários, que não tem fiscalização nenhuma por parte da administração municipal. Quem gera emprego e renda nesta cidade não deveria ser tão prejudicado”, disse, indignada.

Geanes Goularte continua: “já temos comércios fechando e muitas demissões. É muito triste. Além de não ter outra renda, os comerciantes não têm nenhuma ajuda do governo a não ser fazer empréstimos e se endividar sem saber como será após tudo isso passar, o que não é uma boa alternativa. Os comerciantes precisam trabalhar, pois se não venderem não pagam as contas, nem mantém empregos de colaboradores. Colocar as lojas para funcionar em meio período e agora nesse esquema de rodízio só fez causar muito mais aglomeração e confusão na cabeça dos clientes e até dos próprios comerciantes. As medidas tomadas desde o início da pandemia em nossa percepção enquanto comerciante é que o poder público não visa conter, mas sim espalhar o novo coronavírus”.

Todo comércio é essencial, defende empresária

Heler Tânia Guzzo Pignaton

Heler Tânia Guzzo Pignaton, sócia-proprietária da Pimacol Material de Construção, defende que todos os comércios são essenciais. “Por isso existem, eles sustentam famílias no nosso município”, destaca a empresária, acrescentando: “sei que estamos vivendo uma situação atípica, mas a impressão que fica é a de que o comércio é o principal responsável pela proliferação do novo coronavírus, quando, na verdade, foi ele que acabou assumindo o papel de conscientizar a população sobre as medidas preventivas, como a necessidade do uso obrigatório de máscaras. E faz isso, algo que compete ao poder público, o tempo inteiro. Os lojistas, inclusive, chegam a ser taxados de indelicados, tamanha é a exigência. Enfim, não é o comércio que está disseminando o novo coronavírus”.

Outra visão de Heler Tânia é que o poder público preocupa-se em computar números e pouco faz para combater efetivamente o crescimento exponencial dos casos de covid-19. “Entre os dias 21 de março e 22 de abril o comércio ficou fechado e muitos trabalhadores ficaram em casa para que os órgãos públicos pudessem traçar estratégias para combater o novo coronavírus e ampliar leitos. De lá para cá, além da preocupação com o número de infectados e óbitos, o foco parece estar voltado para a redução do horário de funcionamento do comércio, que é o mais penalizado. Essa redução só gera aglomeração, visto que os clientes têm um curto espaço de tempo para irem às compras. Afinal, nosso comércio nunca foi aglomerado, quem dera fosse. Na minha empresa mesmo houve fila na porta, tumulto, coisa que nunca aconteceu. Quanto mais espaço de tempo o comércio tiver, seguindo as exigências sanitárias, menos aglomeração e tumulto haverá. E essa questão de rodízio, dias pares e ímpares, desfavorece o isolamento social, sendo que para ir a lojas de setores diferentes, as pessoas precisam sair dois dias de casa. É algo incompreensível. Acredito que a saída seria testar a população, conscientizar e fazer barreiras sanitárias”, ressaltou a empresária.

Outras opiniões

Glaucineide Crivilin

“Limitar o funcionamento, bem como fechar o comércio não é uma forma de conter o novo coronavírus. É uma medida contrária ao controle da pandemia. Com a abertura de lojas em dias alternados, há redução do tempo para consumo. Isso força os clientes a estarem no comércio naquele mesmo horário limitado, causando aglomeração nas ruas. Muito se fala no comércio não essencial, mas não é essencial até que ponto? Porque já são mais de 90 dias de restrição a quem gera empregos e ajuda a manter a economia do município. Não comercializamos alimentos ou medicamentos, mas hora ou outra nossos produtos se fazem necessário ao consumidor. O aumento de casos confirmados da covid-19 no município ocorre por falta de uma gestão eficaz na área da saúde. Um colapso em leitos pode ocorrer pelo mesmo motivo, e não por conta de aglomeração no comércio. Porque isso não existe”.
Glaucineide Crivilin, empresária – Diquer Design

Jeovana Ahnert Dias

“O funcionamento do comércio não essencial por rodízio só aumenta o número de pessoas nas ruas. Isso porque o cidadão que tirava um dia da semana para resolver suas demandas no comércio agora estará duas ou mais vezes na rua. Então, essa medida não é inteligente e nem responsável para o momento de pandemia que vivemos. Aglomerações no comércio tiveram início depois da implantação desse rodízio, uma vez que o consumidor tem menos tempo para ir às compras. Fora que essa situação – imposta sem muita informação, em meio à troca de decretos em um curtíssimo espaço de tempo – confunde e, muito, o cliente, o que acaba nos prejudicando enquanto comércio. Desde março acompanhando a questão da pandemia, vejo que o que deve ser levado em conta é o fato de que quanto mais tempo as lojas ficam abertas, menor é o fluxo de pessoas nas ruas. Não existe aglomeração dentro do comércio não essencial de Aracruz, que desde o início da pandemia esteve continuamente preocupado com a segurança sanitária de clientes e colaboradores”.
Jeovana Ahnert Dias, empresária – Biju Mania

Comércio de Aracruz não tem oferecido risco, aponta pesquisa
Entre os dias 20 e 21 de junho a Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) de Aracruz realizou uma pesquisa com 78 associados. Entre lojistas e comerciários, o levantamento envolveu 1.113 pessoas. Destas, 62 haviam sido afastadas por suspeita de covid-19 desde o início da pandemia, quatro tiveram a confirmação da doença e nenhuma morte relacionada ao público-alvo da pesquisa foi registrada. Com base nesse resultado, a entidade concluiu que o comércio de Aracruz não tem oferecido risco de transmissão da covid-19 aos consumidores, nem aos trabalhadores por conta dos cuidados internos que as lojas têm tomado, seguindo todos os protocolos.

A CDL Aracruz ressalta que a responsabilidade na prevenção da covid-19 é de toda a sociedade. “A covid-19 é muito grave. Quem já teve uma pessoa da família em tratamento, ou em óbito, sabe os traumas que essa doença traz”, diz trecho de um vídeo divulgado pela entidade nas redes sociais para mostrar os resultados da pesquisa, além de reforçar as dicas de prevenção: só saia de casa se for extremamente necessário e use máscara o tempo todo; não fique nas ruas ou praças; evite aglomerações; não faça festas e encontros de famílias e amigos; faça o isolamento social; respeite o distanciamento mínimo entre as pessoas; lave as mãos com água e sabão ou detergente; use álcool gel; proteja todas as pessoas do grupo de risco da sua família.

O desemprego no comércio e o fechamento das lojas também foram lembrados no vídeo da CDL, que diz estar acompanhando e cobrando das autoridades medidas preventivas e corretivas em relação à covid-19. A entidade reforça: “quanto maior os cuidados, menores os impactos negativos na saúde e nos empregos. Faça a sua parte”.

Aracruz precisou adotar medidas de revezamento do comércio, diz prefeitura
Em nota, a Prefeitura de Aracruz informou que o município está submetido ao decreto estadual que condiciona a abertura do comércio. Esse condicionamento é reforçado em razão da existência de notificação do Ministério Público Estadual (MPES) na qual o município é recomendado a acompanhar integralmente as medidas de isolamento e de fechamento do comércio estabelecidas em decretos estaduais. “Aracruz está enquadrada no risco alto pela Portaria 111 R, de 20 de junho de 2020. Quando isso ocorre, segundo a Portaria 100 R, de 30 de maio de 2020, o município precisa adotar as medidas de revezamento do comércio. Aracruz poderá voltar às condições anteriores caso saia do risco alto”, destaca a nota.

Sobre o comércio ser apontado como principal responsável pela proliferação do novo coronavírus, tamanhas são as restrições ao mesmo, a prefeitura informa que não é possível atribuir a um grupo ou setor a culpa pelo aumento de casos confirmados. “Mas, é possível dizer que a sociedade como um todo não tem observado as recomendações de isolamento social. Quando não existe isolamento social, tem-se um aumento da transmissão e contaminação das pessoas”, conclui a nota da administração municipal.

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