BR-101, uma ameaça ao refúgio dos animais da mata

A presença da rodovia em um dos últimos remanescentes de Floresta Atlântica de Tabuleiros, legalmente protegido, é um grave conflito na conservação da biodiversidade

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Onças jaguatirica e sussuarana atropeladas e mortas na BR-101, na reserva de Sooretama. Fotos: Divulgação

A BR-101 é uma das mais movimentas rodovias do Brasil, ligando as regiões Sul e Sudeste ao Nordeste do país. No Espírito Santo, essa rodovia foi asfaltada durante a década de 70, à revelia da legislação ambiental da época, cortando uma das mais importantes paisagens de Floresta Atlântica de Tabuleiros, o complexo florestal de “Sooretama”, nome que em tupi-guarani significa “terra e refúgio dos animais da mata”.

Um estudo elaborado por Aureo Banhos, Andressa Gatti, Marcelo Renan de Deus Santos e Leonardo Merçon, em 2014, revela que desde a década de 40, muitos anos antes da BR-101 ser implantada, a área foi destinada à conservação da biodiversidade, com a criação das duas Unidades de Conservação mais antigas do Espírito Santo e do Brasil: a Reserva Florestal Estadual de Barra Seca e o Parque de Refúgio de Animais Silvestres Sooretama. Em 1981, as duas unidades foram unidas na Reserva Biológica de Sooretama. Outras reservas importantes também foram estabelecidas na área, como a Reserva Natural Vale, a RPPN Mutum-Preto e a RPPN Recanto das Antas.

Hoje, a área possui aproximadamente 50 mil hectares de florestas protegidas, entretanto, cortada por um intruso trecho de 25 km da BR-101, que diariamente mata dezenas de animais por atropelamento e fragmenta as populações silvestres. A presença da rodovia em um dos últimos remanescentes de Floresta Atlântica de Tabuleiros, legalmente protegido, é um grave conflito na conservação da biodiversidade. Esta situação seria agravada com a duplicação.

O complexo florestal de Sooretama é uma área de extrema prioridade para a conservação da Mata Atlântica, tombada como patrimônio natural da humanidade pela UNESCO e é o último refúgio, no Estado, para a onça-pintada e também para o tatu-canastra. A anta, o maior mamífero terrestre brasileiro, também encontra na região um de seus últimos refúgios.

Mortes de animais na pista

Cenas que poderiam ser evitadas retirando o traçado da BR-101 na reserva de Sooretama: um jabuti atravessando a pista e salvo pelo fotógrafo. Já o tamanduá-bandeira e o macaco não tiveram a mesma sorte. Ainda hoje, mais de 200 animais, répteis e aves são mortos anualmente por atropelamento nos 25 km que a ECO101 quer duplicar no local. Já imaginaram a quantidade de animais mortos se isso ocorrer? Fotos: Divulgação

Em 2014, em um intervalo de quatro meses, duas antas adultas foram atropeladas no trecho da BR-101 em Sooretama. A primeira, um macho, morreu atropelada por um caminhão. A segunda, uma fêmea adulta jovem, morreu atropelada por um carro de passeio. A fêmea estava prenhe de outra vítima, um machinho que já estava bem formado. Três vidas atropeladas que representam perdas irreparáveis para a biodiversidade, pois são as espécies mais ameaçadas de extinção na Mata Atlântica.

Algumas características, como um longo período de gestação (13 a 14 meses), o nascimento de apenas um filhote e o longo tempo de cuidado com a cria tornam as antas ainda mais suscetíveis à extinção, principalmente quando são associadas a ameaças tão impactantes quanto os atropelamentos. Não foram perdidas apenas estas três antas, mas também muitas outras que poderiam nascer nos próximos anos. Antes mesmo de conhecermos a quantidade de antas que existe na região, já se conta o número de vítimas.

Em ambos os acidentes, a alta velocidade dos veículos se revela pela violência do impacto. Os animais tiveram fraturas múltiplas de costelas, ossos das pernas e ruptura de diversos órgãos internos como coração, pulmão, fígado e intestinos. O impacto foi grande o suficiente para fazer com que o conteúdo do estômago fosse parar junto com os pulmões na cavidade torácica, através do rompimento do diafragma. O feto encontrado teve a coluna vertebral completamente fraturada e ruptura do abdômen, com exposição das vísceras.

Por que animais como a anta atravessam as estradas? Na verdade, são as estradas que atravessam as áreas naturais desses animais, utilizadas por eles há milhares de anos. A probabilidade de atropelamento de animais é grande, principalmente em uma via com alto fluxo de veículos em alta velocidade e totalmente despreparada para evitar a tragédia anunciada, como é o caso da BR-101 em Sooretama. Muitos outros casos de atropelamento ocorrem também porque as estradas atravessam as rotas de migração dos animais ou porque as vias acabam atraindo os bichos devido a algum recurso alimentar disponível, como alimentos caídos na pista durante o transporte, insetos atraídos pela luz ou carniça de outros animais atropelados.

As estradas são empreendimentos sociais, mas não podem ser um atentado contra os últimos refúgios da biodiversidade, principalmente as áreas protegidas em um dos biomas mais ameaçados do mundo, a Mata Atlântica. O Estado, o setor produtivo e a sociedade civil têm que assumir esse grave problema da BR-101 em Sooretama, de forma responsável. O ideal é que a rodovia seja realocada, ou seja, desviada da Rebio de Sooretama e seu entorno. Sooretama nunca foi lugar para estrada, sempre foi a terra e o refúgio dos animais da mata.

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