As sementes

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Não faz muito tempo a Universidade do Porto, em Portugal, e a Universidade de Saint Gallen, na Suíça, desenvolveram um interessante indicador relativo ao estado dos países: o EQx, ou “Índice de Qualidade das Elites”, destinado a avaliar se o impacto das ações de grupos de líderes favorece ou dificulta o progresso nacional.

No caso do Brasil, 27º lugar dentre 32 países pesquisados, “o que nós vemos é que as elites, quer políticas, quer econômicas, concentram em si ainda um elevado poder e acabam por utilizar esse poder para promover algumas atividades mais extrativas do valor da sociedade”, declarou a pesquisadora portuguesa Cláudia Ribeiro.

Fiquei a pensar no legado de minha geração. Não conseguimos, enquanto elite dirigente, definir uma singela matriz de transportes compatível com as dimensões continentais do Brasil. O sistema jurídico que concebemos é tão complexo quanto ineficiente. Internacionalizamos nossa economia de forma imprudente. Falhamos na segurança pública. No campo da energia. E por tal caminho seguimos – a lista é longa! Não satisfeitos, estamos por entregar à geração que nos sucederá um país dividido e conflituoso.

A culpa é nossa – nós técnicos, gestores e ‘doutores das leis’ fracassamos. Aquele a quem alguns, de forma preconceituosa, chamam de “Zé Povinho”, não é que vítima de nossa cegueira. E já se descortina no horizonte nosso entardecer. Teremos tempo para nos redimir?

Reza a lenda que na Grécia antiga os sábios discutiam a salvação da Pátria. Demóstenes, então, levou às mãos uma fruta apodrecida, lançando-a ao chão e exclamando: “é verdade. Nossa República está degradada como este fruto. Mas vejam que, do meio da matéria apodrecida, surgem as sementes, porções de vida nova, de esperança. Estas sementes é que deverão merecer o nosso especial cuidado”.

Tais sementes são as crianças – que temos entregue aos cuidados do crime organizado instalado nas periferias de nossas maiores cidades. Cuja saúde temos exposto ao ambiente insalubre produzido pela falta de saneamento básico universal.

Já não temos muito tempo – mas o temos suficiente para livrar nossas escolas e professores do julgo de criminosos e para espalhar canos de água e esgoto por todos os rincões deste país. Acho que pelo menos com isto podemos sonhar enquanto elite. Ou não?

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