Aracruz se despede do seu maior empreendedor

Erling Sven Lorentzen morreu em Oslo, capital da Noruega, aos 98 anos, e foi sepultado lá, na sua terra natal.

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O empresário Erling Sven Lorentzen. Foto: Divulgação

Aracruz perdeu na terça-feira 09 o seu maior empreendedor, o empresário Erling Sven Lorentzen, fundador da maior empresa do mundo em seu setor, a Aracruz Celulose (atualmente Suzano), responsável por fazer do município um dos 10 com a economia mais forte no Estado e ganhando fama mundial. Ele morreu em Oslo, capital da Noruega, aos 98 anos, e foi sepultado lá, na sua terra natal.

O casamento com a Princesa Ragnhild, da Noruega. Foto: Divulgação

Casou-se com a princesa Ragnhild, da Noruega (falecida em 2012), filha mais velha do rei Olavo V e da princesa Marta, da Suécia, em 1953, com quem teve três filhos, Haakon, Ingeborg e Ragnhild. Graças à visão de Lorentzen, Aracruz se consolidou como o maior polo químico, metalomecânico e naval do Espírito Santo, e um dos maiores do Brasil. No Espírito Santo ele fundou o Instituto BioAtlântica (IBIO), com atuação na recuperação da Mata Atlântica no Sul da Bahia e Leste de Minas Gerais.

Lorentzen ajudou a impulsionar o desenvolvimento econômico do Espírito Santo, elevar o mercado de capitais brasileiro e na preservação ambiental do planeta. Suas contribuições para a sustentabilidade receberam notoriedade internacional. Erling não poupou esforços e investimentos em busca de inovações para mitigar os impactos ambientais, consumo de água e as pegadas de carbono na produção.

Em tempos em que investidores e o mercado estão cada vez mais preocupados com o Environmental Social Governance (ESG), a Aracruz Celulose participou desde o início do Índice de Sustentabilidade Dow Jones, criado em 1999. Suas ações foram muito além de sua empresa: por entender a importância de engajar-se na sociedade civil organizada, foi um dos pioneiros da criação do Business Council for Sustainable Development; notabilizou-se na ECO-92 a partir de propostas para reduzir o impacto ambiental do setor produtivo e que, na sequência, foram adotadas; e incentivou estudos que criaram novos padrões de qualidade e de atuação da indústria no Brasil e no mundo.

Trajetória de sucesso

Nascido em Oslo, capital da Noruega, em 1923, a trajetória de Erling Lorentzen ajudou a escrever capítulos na história mundial. Lutou na Segunda Guerra Mundial como membro da resistência de seu país, formou-se em Harvard e foi responsável pela evolução na forma de se fazer negócios no Brasil e no mundo. Erling veio ao Brasil inicialmente em virtude dos negócios que sua família tinha no país. Porém, enxergou uma terra de oportunidades, e tratou de “mover o mundo”.

Investiu no setor de gás a partir da aquisição da Esso, abriu a Norsul, companhia de navegação e, posteriormente, abriu a primeira indústria de processamento de celulose em linha do Brasil. Isso em um período em que o segmento industrial ainda não era muito forte no país e era alvo de muitas desconfianças diante de projetos considerados ambiciosos.

Duas décadas depois, a Aracruz Celulose, que deu origem à Fibria e foi incorporada pela Suzano em 2019, se tornou a primeira empresa brasileira a ser listada na Bolsa de Valores de Nova York, inaugurando uma nova fase para o mercado de capitais brasileiro: a partir de padrões internacionais, as companhias passaram a ter um nível de governança mais acurado.

Além disso, Lorentzen auxiliou no desenvolvimento da região turística de Pedra Azul, em Domingos Martins. Latifundiário da região de montanhas, desenvolvia atividades agrícolas e de ecoturismo em suas propriedades. O Fjordland, por exemplo, pertencia a ele. Erling Lorentzen é daqueles que merecem o selo de bom capitalista honorário. O Espírito Santo perde um Atlas, daqueles homens responsáveis por mover o mundo.

Visionário

Erling Sven Lorentzen apostou no potencial do eucalipto ao tomar a frente do projeto que criou a maior fábrica de celulose em linha única da década de 1970. A jornada não foi simples. Além de a cultura do eucalipto ainda não ser bem difundida no Brasil, a ausência de infraestrutura adequada no Espírito Santo, Estado que veio a sediar a empresa, despontava como mais um gargalo a ser solucionado. Convicto de que a indústria de base florestal tinha tudo para deslanchar no Brasil, Lorentzen superou todos os desafios. Após 40 anos à frente da Aracruz Celulose (hoje Suzano), aposentou-se do Conselho de Administração em 2004 e foi um dos fundadores do Business Council for Sustainable Development (BCSD) e membro do Comitê Executivo do World Business Council for Sustainable Development (WBCSD), entre 1995 e 2004. Em 1997, foi nomeado presidente de honra do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS) e, desde 1996, era membro do Conselho da Conservation International do Brasil.

O “louco” norueguês

Erling Lorentzen recepcionou, na Aracruz Celulose, o príncipe Charles, da Inglaterra. Foto: Divulgação

Na década de 60, Lorentzen iniciou sua enorme contribuição para o setor de árvores cultivadas, quando começou a dar corpo ao projeto com o plantio florestal, que previa a exportação de cavaco. Buscando agregar valor e gerar riqueza com a industrialização, o executivo sugeriu o desenvolvimento de uma indústria local de processamento de celulose.

Obstinado, idealizou a maior fábrica, com 400 mil toneladas. Até mesmo o ditador Ernesto Geisel, então presidente do Brasil, chegou a questionar o projeto. Segundo anedota que o próprio executivo contou várias vezes, Geisel teria comentado “se devia apoiar esse louco norueguês que está insistindo em fazer uma fábrica de celulose no Espírito Santo”. Não só deu certo, como a Aracruz foi a primeira empresa brasileira listada na Bolsa de Valores de Nova York e a única empresa florestal do mundo a participar inicialmente do Índice Dow Jones de Sustentabilidade.

Sua vida

Sexto filho de Øivind Lorentzen e de sua esposa Ragna Nilsen, Erling, aos 17 anos, voluntariou-se para servir na Segunda Guerra Mundial, embora não fosse velho o bastante. Ele atuou no setor médico, ajudando a cuidar de feridos. Envolveu-se no movimento de resistência norueguesa que estava sendo organizado gradualmente. No final de 1942, contudo, Lorentzen foi obrigado a fugir da Noruega, partindo para a Suécia e depois para a Inglaterra, onde foi treinado por um ano.

No início de 1944 ele retornou à Noruega e recebeu a tarefa de organizar, treinar e liderar tropas em uma área do país, onde havia uma importante ligação ferroviária entre o Sul e o Oeste, para combater os nazistas de Adolf Hitler. Lá permaneceu até o fim da guerra, instruindo cerca de 800 pessoas.

Quando a guerra acabou, Erling Lorentzen resolveu continuar seus estudos e foi aceito na Harvard Business School, nos Estados Unidos. Após o término dos estudos, ele regressou à Noruega para ajudar a administrar os negócios da família, mas também continuou seu serviço militar.

Homenagens e opiniões

Em Aracruz, Erling Lorentzen foi homenageado com o título de cidadania e a Comenda Monsenhor Guilherme Schimitz, em 1998, a maior honraria concedida pelo município. O prefeito Dr. Coutinho decretou luto oficial de três dias, em Aracruz, pelo falecimento do empresário Erling Lorentzen.

“Minhas condolências à família do norueguês Erling Lorentzen, fundador da antiga Aracruz Celulose. Um exemplo de liderança e empreendedor visionário. Radicado no Espírito Santo, ele transformou a economia e o mercado brasileiro, agregando valores entre produção e sustentabilidade”.
Erick Musso, presidente da Assembleia Legislativa

“É com grande tristeza que recebemos a triste mensagem de que Erling Sven Lorentzen adormeceu. Nossos pensamentos vão para seus entes queridos, que perderam um bom pai, sogro, avô e bisavô”.
Rei Harald, da Noruega, cunhado de Erling

“O Espírito Santo perdeu uma das suas principais personalidades. Norueguês, Erling Lorentzen escolheu o Estado para radicar seu espírito empreendedor que o colocou na rota do desenvolvimento mundial. Aos familiares, meu abraço e reconhecimento”.
Governador Renato Casagrande

“O exemplo de Lorentzen de empreendedorismo, busca por sustentabilidade e visão empresarial representa um marco importante não só do setor de base florestal, mas também para o Brasil e para a indústria mundial de celulose”.
Ex-governador Paulo Hartung

“Lamento o falecimento e reforço a importância da atuação empreendedora do legado de contribuições de Erling Lorentzen para Aracruz e o Espírito Santo, com destaque para a carreira empresarial de sucesso. O empresário levou o nome de Aracruz para o mundo. Foi um visionário e um dos maiores empreendedores do país, por sua marcante atividade empresarial e socioambiental. Ele deixa um legado de contribuições com o desenvolvimento do município evidenciando o empreendedorismo, liderança, trabalho e respeito a todos. Meus sentimentos aos familiares e amigos. Nossa cidade perde não somente um empreendedor, mas uma figura singular em nossa história, por isso estamos decretei três dias de luto no município”.
Dr. Luiz Carlos Coutinho, prefeito de Aracruz

“O Sr. Lorentzen é visionário, pioneiro, empreendedor, incansável e, sobretudo, um homem do futuro. Sustentável, íntegro, transparente e humano, levou o nome da Aracruz Celulose para o mundo. Fez muito pelo setor de celulose do Brasil, introduzindo o eucalipto em larga escala no mercado mundial, cuidando do social, do meio ambiente, da tecnologia e, acima de tudo, do crescimento das pessoas e dos negócios. Ele é dessas pessoas que jamais envelhecem em suas ideias e jamais desistem do progresso para todos. Tive a honra e o prazer de conviver e aprender muito com ele. Agradeço ao universo por ter me dado essa oportunidade”.
Carlos Aguiar, ex-presidente da Aracruz Celulose e da Fibria

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