NOSSA HISTÓRIA: Aracruz quase teve uma Usina Nuclear

As pesquisas, na época, foram feitas pela Nuclemon, subsidiária da Nuclebras, e quando a notícia vazou, houve intenso protesto popular em Vitória e Aracruz

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Foto: Divulgação

Das duas usinas nucleares anunciadas em 1979 pelo governo militar para o Espírito Santo – Angra IV e Angra V –, uma seria na localidade de Baiacu, na orla de Aracruz, entre Santa Cruz e Santa Rosa. As pesquisas, na época, foram feitas pela Nuclemon, subsidiária da Nuclebras, e quando a notícia vazou, houve intenso protesto popular em Vitória e Aracruz.

O então presidente do Brasil, general João Baptista de Oliveira Figueiredo, que havia acabado de ser imposto no cargo, manteve em sigilo o anúncio das duas usinas em território capixaba. Foi no Restaurante Mocambo, em Santa Cruz, na época gerenciado pelo jornalista Danilo Salvadeo, onde os geólogos da Nuclemon faziam suas refeições, que eles começaram a contar detalhes do projeto no Baiacu.

Curioso como todo jornalista, Salvadeo, que estava sem atuar na imprensa naquele ano, apurou muitos detalhes e depois os revelou ao colega Rogério Medeiros, então correspondente do Jornal do Brasil no Estado e que estava sempre em Santa Cruz. Dali a notícia ganhou as manchetes nacionais e depois da imprensa capixaba, o que obrigou o presidente da CPI Acordo Nuclear Brasil-Alemanha, senador Dirceu Cardoso, a confirmar os empreendimentos.

Isso levou aproximadamente 15 mil pessoas à Praça Oito, em Vitória, protestando contra o projeto do governo militar, sendo a maior concentração popular dos últimos anos na Capital. Operários, velhos, crianças, estudantes, representantes da maioria das classes sociais do Estado se reuniram no local e depois de vários discursos, realizaram uma passeata pela avenida Jerônimo Monteiro até o Palácio Anchieta.

A concentração antecedeu uma grande carreata até Aracruz, promovida pela Associação Capixaba de Proteção à Ecologia e ao Meio Ambiente (Acapema), com o apoio de 18 sindicatos e outras entidades de classe, como a União dos Professores e diretórios estudantis.

A partir de 17h a multidão, portando cartazes e gritando “queremos resfriar a Usina Nuclear”, invadiu a avenida Jerônimo Monteiro. O senador Dirceu Cardoso destacou que as duas usinas estão nos planos da Eletrobras, mas fez uma ressalva: com tantos problemas que o governo atravessa atualmente, creio que a instalação vai levar pelo menos 20 anos.

De acordo com o jornalista Roberto Junquilho, a Marcha a Aracruz, um protesto contra a usina de reprocessamento de urânio e um depósito de lixo atômico, não conseguiu reunir os mesmos 10 mil manifestantes da primeira manifestação feita em Vitória, no dia 19 de novembro de 1979. Mas foi, sem dúvida nenhuma, a maior manifestação popular em Aracruz, com 2,5 mil pessoas reunidas na Praça Monsenhor Guilherme.

Os manifestantes saíram de Vitória e na viagem conseguiram mais adeptos em Fundão e Ibiraçu. Durante o ato, foram pronunciados 15 discursos contra a implantação da usina atômica. Vários políticos da oposição, entre eles o deputado federal Max de Freitas Mauro, fizeram duras críticas ao governo militar e à Nuclebras.

O orador mais aplaudido foi o padre Lino Cordeiro, de Ibiraçu, que disse: “a proposta de Deus é a vida e não a destruição pela energia nuclear”. Entre os manifestantes estavam trabalhadores de várias categorias, donas de casa, estudantes e políticos.

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