Abelhas ameaçadas pelo fumacê em Aracruz

Em maio último, dezenas de caixas perderam os insetos em Santa Cruz e nas aldeias indígenas após aplicação do fumacê durante a manhã, período em que as abelhas saem em busca de alimento.

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Foto: Divulgação

Meliponicultores (criadores de abelhas nativas, sem ferrão) de Aracruz cobram ações da prefeitura para proteger os insetos do fumacê. O inseticida para matar mosquitos da dengue tem o efeito, em média, de três horas, e aplicado pela manhã provoca a intoxicação das abelhas, pelo contato com o veneno no ar ou com as plantas onde ele se deposita.

Em maio último, dezenas de caixas perderam os insetos em Santa Cruz e nas aldeias indígenas após aplicação do fumacê durante a manhã, período em que as abelhas saem em busca de alimento. “O fumacê está passando há vários dias seguidos pela manhã, num horário em que as abelhas mais saem. O inseticida é por contato e é prejudicial demais para elas”, relata Germany Herzog, que cuida de um meliponário junto com o pai. “Meu pai tem um sítio, fechou as caixas que sobraram e levou embora. E as abelhas que estão nas árvores? Morrem todas”, lamenta.

Domingos José Alburghetti é outro meliponicultor aracruzense que assiste a mortandade das pequenas polinizadoras. Metade dos seus enxames de uruçu-amarela já morreu ou está morrendo aos poucos, sem chance de salvar. Também houve perdas importantes nos enxames de mandaguarí amarela e jataí. O criador conta que os enxames mais prejudicados eram exatamente os mais fortes, ou seja, com mais abelhas campeiras, as que vão a campo para buscar o alimento para as demais. São elas, principalmente, que trazem o veneno junto com o alimento, depois de percorrerem em média quatro quilômetros, ou mais, nas épocas de escassez de flores como agora, no outono/inverno.

As abelhas que não morreram ficaram mais fracas com a morte das campeiras e outras. Domingos explica que o ideal é a aplicação noturna do fumacê, quando as abelhas estão de volta às caixas. De 19h até meia-noite é o horário ideal. Assim, quando as abelhas começarem a sair das caixas no amanhecer, o veneno já terá dispersado e o ambiente estará seguro.

Nos casos de aplicações diurnas, seria necessário avisar aos meliponicultores cadastrados na prefeitura, para que tomem medidas de proteção. A Associação dos Meliponicultores do Espírito Santo (AME-ES) pede que a aplicação do fumacê seja feita como em Vitória, comunicando aos meliponicultores o cronograma de aplicações, para que as abelhas possam ser trancadas nas caixas ou transferidas temporariamente para lugares mais seguros.

Em Aracruz, as rotas e horários do fumacê são publicados no site da prefeitura, mas, na prática, ocorre de outra forma, pegando todos de surpresa. A AME-ES sugere a transformação dessa estratégia em lei municipal, para garantir que não ficará dependendo apenas da boa vontade e compromisso dos servidores ou do prefeito.

Vitória
O uso do neonicotinoide, um dos agrotóxicos mais utilizados no mundo e o mais letal contra as abelhas, está proibido no município de Vitória, pela Lei nº 9350. Na capital, o neonicotinoide não pode ser usado pelas empresas de jardinagem ou pela prefeitura em serviços em praças públicas, unidades de saúde ou fumacê, onde o inseticida é muito comum, ou mesmo por moradores. No período diurno as abelhas sem ferrão estão nas ruas coletando pólen e néctar e podem ser envenenadas fatalmente pelo inseticida.

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