A sensibilidade de Elisângela Rosalém e a importância de ser doula

Após experiência traumática no parto, ela virou doula para ajudar outras mães

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A doula Elisângela Félix Rosalém. Foto: Jasleon Humberto

Quando engravidou pela primeira vez, Elisângela Félix Rosalém esperava tudo, menos que teria uma experiência de parto traumática. E o pior: que fosse vítima de violência obstetrícia, expressão que a Organização Mundial da Saúde (OMS) define como o conjunto de atos desrespeitosos, abusos, maus-tratos e negligência contra a mulher e o bebê, antes, durante e depois do parto, que “equivalem a uma violação dos direitos humanos fundamentais”.

A não informação sobre a indução de ocitocina sintética (remédio indicado para acelerar as contrações do trabalho de parto), manobra de Kristeller (pressão na parte superior do útero para facilitar o nascimento) e episiotomia (corte feito na área genital externa da mulher para ampliar o canal de parto) foram algumas das violências obstétricas sofridas por Elisângela, que há dois anos atua em Aracruz como doula (palavra que vem do grego e significa ‘mulher que serve’; é a profissional que oferece apoio emocional e conforto às grávidas antes, durante e depois do parto) para que outras mulheres não passem pelo que ela passou. “Tem gente que nem sabe que isso é crime”, afirma.

Era 03 de junho de 2002, uma segunda-feira, dia em que a Seleção Brasileira masculina de futebol fazia sua estreia na Copa do Mundo da Coreia do Sul e do Japão. “Depois de receber a analgesia oferecida para não sentir dores, fiquei sozinha por um longo período no centro cirúrgico. Aplicaram-me anestesia como se fosse fazer cesariana, mas era parto normal. Fiquei, portanto, sem sensibilidade da cintura para baixo, o que me levou a sequer conseguir sentir as contrações. Naquele momento precisava de alguém que me orientasse, mas estavam todos assistindo ao jogo na TV”, lembra Elisângela, que chegou ao Hospital e Maternidade São Camilo com a bolsa rompida, mas não sentia contração.

“Hoje eu sei que não precisava ter ido naquela situação para o hospital. Podia ter esperado entrar em trabalho de parto. Naquela época, contudo, não tinha esse conhecimento. A visão que tenho é que todo aquele processo foi atropelado. Assim que cheguei ao hospital, passei por uma lavagem intestinal, então o processo padrão, depois me deram o que chamavam de ‘sorinho’, mas era ocitocina sintética e o que eu esperava ser um parto regular, não foi. Acabei aceitando a analgesia, mas confiando na equipe médica de que aquilo só iria cessar minhas dores. Depois só lembro-me de ter visto os médicos voltando ao centro cirúrgico com a percepção de que alguma coisa estava muito errada. No final das contas, minha filha teve uma parada cardiorrespiratória. Os médicos conseguiram reanimá-la e de lá ela foi encaminhada para um hospital em Vitória. Não tive a oportunidade de ver o rostinho da minha filha na hora do nascimento, como é o desejo de toda mãe. Demorou muito para que pudesse segurar minha filha pela primeira vez após o parto”, relata Elisângela, que ficou traumatizada após aquela experiência negativa.

Os danos do que hoje Elisângela avalia como violência obstétrica a marcaram tanto que na gravidez da segunda filha, ela não conseguiu conter o medo. “É difícil para as vítimas compreenderem que sofreram uma violência obstétrica, já que pensam que determinados procedimentos e atitudes são comuns na hora do parto. Sem consciência do que desencadeou todo aquele triste episódio que deixou sequelas irreversíveis na minha filha primogênita, eu me culpei por muito tempo. Cheguei a passar por períodos depressivos [fase que vem sendo superada com ajuda de terapia e medicamentos, além da adoção de hábitos mais saudáveis]. Quando descobri que passaria pela segunda gestação, fiquei com muito medo de tudo ocorrer novamente. A ansiedade pela chegada se misturou, várias vezes, ao medo de não conseguir. Tamanho era o meu receio que acabei passando por uma cesariana eletiva. Tive, portanto, duas experiências ruins de parto. Carreguei por muito mais tempo a sensação de culpa por não ter sido forte para trazer minhas filhas ao mundo pelas vias naturais. Anos depois, tive a oportunidade de cursar Psicologia, mas precisei trancar a faculdade [retomada em 2018] para cuidar da minha primogênita frente ao seu agravamento clínico. Foi aí que descobri a profissão de doula. Capacitei-me e acredito que hoje, atuando na doulagem, tenho atingido minha maturidade emocional, sobretudo em relação a minha primeira ida à maternidade. Libertei-me de muitas coisas e isso mudou a minha vida”, enfatiza, acrescentando que “para evitar se tornar mais uma vítima ou saber se já sofreu algum tipo de violência obstétrica, é importante que a mulher se informe. Informação e comunicação são duas palavras-chave que evitam casos como os vividos por mim. É fundamental que a mulher crie um plano de parto junto com seu obstetra. Trata-se de uma ferramenta que ajuda ela e o médico a conversarem sobre os procedimentos que serão ou não realizados durante o nascimento do seu bebê”.

O ENCONTRO COM A DOULAGEM
No ano de 2017, a primeira filha de Elisângela Rosalém precisou passar por uma complexa cirurgia no Hospital Santa Mônica, em Vila Velha. Na maternidade da unidade hospitalar, enquanto aguardava a primogênita passar pelo procedimento delicado, a mãe ouviu os indícios de um parto humanizado (é o parto mais natural possível, em que se respeita a fisiologia do parto e da mulher, e intervenções são feitas apenas quando necessárias). Aquilo despertou sua curiosidade. Ela buscou informações e passou a ler sobre o assunto. A leitura virou estudo e Elisângela acabou descobrindo uma profissão que tem sido solução para um problema contemporâneo: mesmo com dez profissionais de saúde em torno das mães, elas se sentem sozinhas na hora do parto.

Elisângela Rosalém usa arte com placenta para que as parturientes que ela atende possam lembrar-se da experiência de ser mãe. Foto: Arquivo Pessoal

Reconhecida como ocupação em 2013, a atividade ainda é novidade para grande parte dos pais, mas as doulas – mulheres que oferecem apoio emocional e conforto às grávidas durante os processos de pré-natal, parto e pós-parto – são cada vez mais requisitadas. Elas são pessoas experientes que trabalham para dar incentivo à gestante. Aplicam técnicas para amenizar a dor como massagem e respiração tranquilizante, mas o fundamental é a companhia que elas fazem às parturientes. “Meu maior cuidado é manter o ambiente calmo para que elas se sintam seguras no momento do parto. Teria sido tudo diferente se tivesse tido a oportunidade de ter o suporte de uma doula nas duas vezes em que estive grávida. Exercendo essa minha profissão, percebi a sequência de violências que sofri. Com certeza, uma doula teria aberto meus olhos para outras possibilidades. Esse é justamente o papel que busco desempenhar agora. Uma mulher que tem apoio e informação tem mais chances de chegar ao fim da gestação com uma experiência positiva”, ressalta Elisângela.

O maior cuidado de Elisângela Rosalém é manter o ambiente calmo para que as parturientes se sintam seguras no momento do parto. Foto: Arquivo Pessoal

O trabalho de uma doula, conta Elisângela, começa na gestação, com o repasse de informações para que a mulher possa escolher, de forma consciente, como deseja ter o bebê e/ou com exercícios para facilitar o nascimento do bebê. No dia do parto, a doula presta acompanhamento emocional e dá suporte com métodos não farmacológicos para redução da dor, como massagens, banhos ou encontro da posição ideal para parir. Ela não faz, portanto, atos médicos e assistenciais. Depois, ainda pode orientar a nova mãe nos cuidados com o bebê. “A doula presta serviço de apoio, escuta, acolhimento e, principalmente, suporte emocional durante o trabalho de parto”, reforça Elisângela Rosalém. Além de prestar atendimento particular, ela atua voluntariamente no Hospital e Maternidade São Camilo, atendendo, sempre que possível, as gestantes do Sistema Único de Saúde (SUS). O número para contato é (27) 98862-8456. Também é possível entrar em contato pelo Instagram (@elisangelarosalem).

TRABALHO DE SUMA IMPORTÂNCIA
Ativista e defensor do parto humanizado, o médico ginecologista e obstetra Dr. Eduardo Pereira Soares, superintendente do Hospital e Maternidade São Camilo, diz que o trabalho das doulas é de suma importância para as gestantes que optam por um parto normal. “Estas profissionais dão um suporte físico e emocional para que o trabalho de parto seja tranquilo e ressignificado. Entende-se a dor como um fator necessário e transformador”, diz.

Ainda de acordo com Dr. Eduardo, as doulas têm um papel extremamente benéfico para a mãe, o bebê e toda a equipe médica, com redução do índice de cesarianas, conforme apontam estudos recentes: todo o trabalho mental feito junto à gestante garante a paz, empoderamento e coragem do momento do parto.

O ginecologista e obstetra lembra que durante a gestação, as doulas ajudam as mulheres a encontrar a posição e local mais confortável para elas, transmitem mensagens positivas, fazem massagens para aliviar a dor, além de ajudar o (a) acompanhante a participar efetivamente de todo o processo. “Existem casos que as mães em trabalho de parto, por determinadas complicações, têm que desistir do parto normal e fazer uma cesariana. Na maioria dos casos, elas exigem a presença da doula durante a cesárea, tamanha a segurança e tranquilidade que estas profissionais passam para a grávida”, conta Dr. Eduardo.

O superintendente do Hospital e Maternidade São Camilo ressalta também que a humanização do parto e do nascimento é um dos focos da instituição, que tem como meta o atendimento humanizado. “Temos incentivado cada vez mais o parto normal, natural e sem intervenção e a presença da doula é parte fundamental. Além de ser um momento único na vida da mulher, mudar a forma de nascer e respeitar a decisão e opção consentida pelo ‘tipo de parto’, apoiando a decisão com respeito e empatia é fundamental. Empenhamo-nos em fazer com que esse momento seja inesquecível. Parto humanizado é o parto que respeita os desejos da mulher”, pontua.

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