A falta de algo

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Desde a mais tenra infância escuto a arenga monótona de que o mais sério problema do Brasil é a “falta de dinheiro”. Esta “senhora”, sem rosto, incapaz de dar entrevistas ou prestar esclarecimentos, acabou assumindo o papel de “bode expiatório”. Peço licença, porém, para escrever algumas singelas linhas em sua defesa.

Que se vá a algum banheiro público brasileiro. Quase sempre o odor será nauseante e faltarão insumos os mais básicos. Pois é. Será que o Brasil não tem dinheiro nem para limpar banheiros?

Por falar em banheiros, procure-os pelas ruas. Praticamente não existem, para angústia de milhões de seres humanos – principalmente aqueles que trabalham de forma externa. A solução tem sido, não raramente, imitar os canídeos e urinar pelos muros, árvores, postes etc. – um quadro degradante. Também aqui é difícil aceitar que não tenhamos condições financeiras para arcar com algo tão básico.

Experimente trafegar pelas ruas de nossas mais ricas cidades. A maior parte delas é mais adequada para cabritos, tal a quantidade de buracos que apresentam. Custo a crer que este país não tenha recursos sequer para tapar buracos em suas ruas e avenidas – já não falo nem em rodovias.

A propósito de buracos, já perdi parentes idosos por conta de quedas causadas pelo péssimo estado da maioria de nossas calçadas. Como eu, milhões de brasileiros. É crível que o orçamento público não seja suficiente nem para proporcionar ao povo um pavimento decente?

Não faz muito tempo li que quase metade da água tratada se perde pela rede de distribuição. Um desperdício tão imenso como histórico. Mas será mesmo possível que nossa pátria não disponha de verbas sequer para consertar canos e manilhas?

Percorra nossos maiores centros urbanos e perceba o quão numerosos são os prédios públicos abandonados. Não dá para acreditar que seja por conta desta senhora, a “falta de dinheiro”. Não, não é possível que seja!

Registro que não estou a falar de coisas extraordinariamente complexas ou custosas, mas apenas do básico. Do mínimo. De algo próximo da dignidade mais essencial a ser conferida pelo Estado aos cidadãos. É assim, diante de tantos exemplos, que fico a pensar se o que mais nos flagela é realmente a “falta de dinheiro”. Ou se há algum outro personagem neste cenário a necessitar de atenção.

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