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07/06/2019
Violência nas escolas | Pedro Valls Feu Rosa

Há pouco menos de um ano li uma chocante reportagem sobre a violência nas escolas. Denunciou-se, sem rodeios, que “alunos matam aula, usam e vendem drogas na escola e ameaçam professores e coordenadores de morte”. Haveria algum sensacionalismo nesta matéria? Penso que não. Em 2006 o Ministério da Educação concluiu, após uma pesquisa de âmbito nacional, que incríveis 47% dos professores ou funcionários das escolas públicas já foram xingados ou ameaçados por alunos. E a Secretaria Nacional Antidrogas constatou, em 2005, que 12,7% dos alunos brasileiros entre 10 e 12 anos já consumiram algum tipo de droga ilícita.

 

Seria este um problema típico de países que ainda não alcançaram altos graus de desenvolvimento econômico? Não. Inglaterra, um passo à frente: um professor é verbal ou fisicamente agredido a cada sete minutos, conforme estudo realizado pela Associação Nacional de Professoras. Constatou-se que os professores ingleses vêm sendo mordidos, arranhados, chutados e socados. Em um caso, uma menina empurrou a professora sobre uma carteira, e enquanto esta caía ao chão o resto da classe aplaudia com entusiasmo. Por conta de casos assim, em 2008 uma pesquisa nacional concluiu que 20% dos professores daquele país exigiam o retorno das punições corporais para alunos insubordinados, com o uso de bastões. Diante deste quadro tenebroso, as escolas inglesas ganharam o direito de revistar seus alunos.

 

Seria a Inglaterra uma exceção na Europa? Não. Segundos dados da Agência Europeia para a Segurança no Trabalho, nada menos que 1,5 milhão de professores foram agredidos por alunos no ano de 2004. Foi recomendada, em nível continental, a substituição de móveis e equipamentos que pudessem servir de arma, e bem assim a instalação de dispositivos de segurança para revista e controle dos alunos.

 

Na conceituada Suíça, segundo noticiou há poucos meses o informativo Swissinfo, este problema alcançou um nível de seriedade tal que chegou-se ao ponto de proibir o consumo do popular energético Red Bull nas escolas. Um funcionário de uma escola de Rümlang chegou a declarar que “já tivemos muitos casos de crianças inquietas, que não eram capazes de ficar sentadas nas suas salas de aula”.

 

Os Estados Unidos enfrentam o mesmo problema, conforme registrou uma detalhada reportagem do sério The New York Times: “Alunos colocam suas mochilas em aparelhos de raios-x e passam por detectores de metal. Este processo, similar ao que é realizado em aeroportos, é um ritual diário para os mais de 4 mil estudantes da Kennedy High School, em Nova York, que às vezes esperam até 30 minutos na fila da segurança”. Segundo o jornal, “esta rotina não é estranha à cidade de Nova York, na qual 65 escolas procedem da mesma forma”. Esclareceu-se que detectores de metal são utilizados nas escolas de lá desde a década de 1980.

 

Conforme apontou a matéria, este quadro é nacional: “no Distrito Escolar de Los Angeles, guardas de segurança devem conduzir buscas aleatórias em pelo menos uma sala de aula a cada dia. A Philadelphia coloca detectores de metal em todas as suas escolas desde 1997. A maioria das escolas tem dois detectores, e os alunos devem chegar normalmente uma hora antes das aulas para serem revistados”.

 

Após ler todas estas reportagens, estudos e pesquisas, observei, além dos dados chocantes, um outro ponto comum a todas: a constatação de que um grande fator para a violência nas escolas é a impunidade dos menores infratores. Como “tudo acaba dando em nada”, os pobres professores ficam a cada dia mais fragilizados e acuados.

 

Apenas para que se tenha uma ideia do nível desta impunidade, calculou-se que, no Brasil, 15% dos menores infratores internados cometeram assassinatos – desses, mais da metade não ficam sequer um ano fora das ruas. E o pior, conforme escreveu o conceituado jornalista Pedro Maia em memorável artigo publicado há poucos anos, é que no já pouco tempo que estes menores ficam “nestas masmorras com roupagem de assistência social, nada lhes é dado de positivo para uma mudança do destino que a vida lhes reserva. Muito pelo contrário”. Sábias palavras!

 

O autor é desembargador e presidente da Primeira Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Estado do Espírito Santo (TJES)

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