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03/05/2019
Nossas Crianças | Pedro Valls Feu Rosa

Dia desses, lendo o respeitado jornal Chosun Ilbo, da Coreia do Sul, deparei-me com uma matéria digna das mais profundas reflexões, particularmente sob o pano de fundo do futuro da humanidade. Noticiava-se ser um negócio florescente, naquele país, a contratação de um certo “serviço de tios”, destinado a ajudar crianças que estejam sendo vítimas de assédio nas escolas – algo lamentavelmente comum em um mundo no qual a instituição da família e a figura da autoridade enfrentam uma crise sem precedentes.

 

Funciona assim: os pais da criança que estiver sendo vítima de assédio contratam os serviços da empresa, que despacha para a escola, como se “tio” desta fosse, um daqueles tipos com aspecto de pessoa sinistra e violenta. Este falso tio, lá chegando, providenciará na porta da escola um “barraco” de grandes proporções, ameaçando a criança que estiver assediando seu “sobrinho”, e bem assim sua família. Este “pacote” custa precisos US$ 443 por dia.

 

Há também a opção, mais civilizada, de coleta de provas. Conforme esta, o suposto tio reunirá evidências do assédio, inclusive filmagens e gravações, e comparecerá diante da diretoria da escola para cobrar providências, sob pena de encaminhar o assunto para as autoridades. Para este serviço, a família desembolsará US$ 354.

 

O terceiro “pacote” de serviços, entretanto, é de longe o mais, digamos assim, exótico – e caro, custando US$ 1.772. Neste caso, o falso tio da vítima – lembremos, um brutamonte de aspecto sinistro – compromete-se a ir nada menos que quatro vezes ao local de trabalho dos pais da criança autora do assédio. Lá chegando, começa a instalar um escândalo, gritando frases como “o pai de uma criança que pratica assédio trabalha ali”, seguidas das devidas ameaças e intimidações.

 

Fiquei a meditar sobre este quadro. Reflete ele uma crise profunda de autoridade – que o digam os professores, a cada dia mais desamparados e impotentes diante da violência instalada nas salas de aula. Traduz, também, a falência do aparelho estatal e a aurora de um trágico “salve-se quem puder”.

 

Mas, talvez o aspecto pior seja o da decadência da instituição denominada “família” – uma das grandes responsáveis por um quadro de violência, depressão e até suicídios de crianças, algo que já começa a se tornar rotina no seio da humanidade.

 

O autor é desembargador e presidente da Primeira Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Estado do Espírito Santo (TJES)

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