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29/03/2019
Prepare-se para ser desinfetado | Pedro Valls Feu Rosa

Você quer ir à França? Prepare-se para ser desinfetado. Se o seu destino for a Argentina ou o Chile, aguarda-o igualmente uma boa dose de inseticida. Explico: em função de uma exigência sanitária, todo avião que esteja partindo de aeroportos brasileiros rumo a estes países deve ser desinfetado com os passageiros dentro. Funciona assim: quando o avião tem suas portas fechadas, antes da decolagem, a tripulação abre algumas latas de inseticida e passa pelos corredores desinfetando a tudo e a todos.

 

As barreiras sanitárias não são ruins – longe de mim criticá-las! Somente me causa espécie a falta de reciprocidade. Sim, quem estiver a embarcar de Santiago, Buenos Aires ou Paris rumo a estas terras tupiniquins não será desinfetado! O fato é que talvez não estejamos sendo suficientemente cautelosos com a proteção de nossa riquíssima biodiversidade!

 

Vamos a um exemplo da importância de sermos cautelosos: a Bahia era exportadora de cacau até a chegada de uma praga conhecida como “vassoura de bruxa”. Hoje, somos importadores – um prejuízo de bilhões para o Brasil. Falou-se até em sabotagem! Seja como for, este episódio demonstra a importância de sermos prudentes.

 

O cacau não é nossa única riqueza. Temos a pecuária, uma das melhores e mais saudáveis do planeta. Imaginemos o quanto significaria a introdução, em nosso país, da conhecida “doença da vaca louca”. Somos também grandes exportadores de frangos. Calcule-se o quanto sofreríamos se a gripe aviária desembarcasse em nossas terras. Estes, certamente, são perigos extremos, que talvez um simples inseticida não eliminasse. Mas e os outros?

 

O fato é que a humanidade não tem sido mesmo cautelosa com a higiene e o combate às doenças. Recordo-me, por exemplo, de dada pesquisa através da qual se constatou que 49,1% dos moradores de uma de nossas maiores capitais jogam lixo pelas janelas dos ônibus. A Prefeitura do Rio de Janeiro gasta, a cada mês, 110 litros de essência de eucalipto só para tirar o cheiro de urina das ruas. A Baía de Guanabara tem 53 praias – 49 delas não podem ser frequentadas devido à poluição da água. Padecemos com a vergonha das epidemias de dengue.

 

Este quadro, repito, é mundial. Há poucos dias li que 100 pessoas foram presas em Uganda por não terem banheiros em casa – em função de uma epidemia de cólera que assola aquele país, o governo havia exigido a construção de pelo menos um banheiro em cada casa. Na Alemanha divulgou-se, em 2004, uma chocante pesquisa segundo a qual apenas 38% dos alemães tomam banho todos os dias. Nos Estados Unidos da América, um recente vídeo mostrou uma dúzia de ratazanas circulando livremente por uma loja de uma grande cadeia de lanchonetes situada em uma valorizada área de Nova York.

 

No Reino Unido, o prestigioso jornal The Times noticiou a falta de higiene em um terço dos hospitais de lá. A notícia falou que nem mesmo “água quente, sabão, álcool e outros requisitos básicos de higiene” estavam disponíveis. Outra pesquisa demonstrou que o governo britânico gasta US$ 237 milhões a cada ano só para remover chicletes mascados e colados em calçadas e bancos de praças. Uma terceira pesquisa anunciou que 50% dos jovens britânicos não lavam as mãos antes de comer. Alimentos? Segundo divulgou a séria BBC News, 50% dos empregados do setor alimentício não lavam as mãos após uma ida ao banheiro.

 

Na França, detentora do título de maior consumidora de perfumes do planeta, com incríveis 12 frascos anuais por pessoa, concluiu-se, ao final de uma pesquisa, que apenas três em cada dez habitantes usam desodorante. Ainda sobre este assunto, a rede de televisão RTL divulgou que 3,8% dos franceses não tomam banho e apenas 71% o faz todos os dias.

 

Diante desta realidade, com certeza cheiraria bem adotarmos todas as cautelas na área sanitária. Um bom início seria exigirmos a desinfecção das aeronaves que estejam se dirigindo ao nosso país. Afinal, como proclamou Ralph Cordell, “apesar de todos os avanços da Medicina, lavar as mãos continua sendo a melhor maneira de prevenir uma infecção”.

 

O autor é desembargador e presidente da Primeira Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Estado do Espírito Santo (TJES)

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