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05/10/2018
Nossos brasões | Pedro Valls Feu Rosa

Dia desses tive a oportunidade de ler uma significativa certidão, datada e assinada por um Oficial de Justiça. Dava conta da impossibilidade de intimar dada pessoa por conta da absoluta falta de condições de trafegar no bairro onde esta residia – trata-se de uma área sob a influência do crime.

 

Esta certidão coincide com os depoimentos que tenho ouvido de diversos outros meirinhos, ao longo de quase duas décadas. De um ouvi que o único horário para se trabalhar nestes locais perigosos é ao amanhecer, quando a bandidagem repousa. De outro, que a saída foi obter com o “capo” local permissão para por lá trabalhar. Houve quem me narrasse ter tido a passagem bloqueada e a vida ameaçada por criminosos armados de escopeta em plena luz do dia.

 

Fiquei a meditar longamente sobre este quadro. Afinal, tudo isto vem acontecendo ali do lado, à vista de todos, a poucos metros das sedes de poderes constituídos da República Federativa do Brasil ou de suas instituições mais sagradas.

 

Lancei um olhar sobre o documento que deveria ter sido objeto de cumprimento pelo Oficial de Justiça. Ele inicia exibindo um vistoso brasão do Estado do Espírito Santo. Logo abaixo, a indicação “Poder Judiciário”. Mais alguns centímetros, e deparei-me com a expressão “O Exmº Sr. Dr. … MANDA … ao Oficial de Justiça … que intime” dada pessoa.

 

Fico a pensar na cena de um meirinho suplicando a um “chefão do crime” que aponha seu “cumpra-se” a tão vetusto documento, tão pródigo em brasões e títulos. Talvez, no final das contas, o dito cujo esteja a entender que “Excelência”, “Senhor” e “Doutor” seja ele – e dentro de um raciocínio rigorosamente lógico, pois na realidade foi quem conferiu validade prática ao mandado judicial.

 

Que dizer da imagem de um emissário do tão solene “Mundo das Leis” fugindo de escopetas em plena luz do dia? Não o protegeu documento tão sério – e nem sua identidade funcional, não menos rica em títulos, brasões e advertências.

 

Contemplo a bandeira do Brasil. Leio a expressão “Ordem e Progresso”, tão orgulhosamente ali lançada. Começo a compreender por que o desenvolvimento nos tarda tanto a chegar.

 

Talvez, diante desta realidade tão pungente, devêssemos pensar em retirar de nossos documentos oficiais os brasões e títulos que os adornam – seria menos humilhante para todos nós.

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