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14/09/2018
Pendenga entre o italiano e tenente-coronel | Geraldo Magela da Silva Araujo

O Dr. João Gonçalves de Medeiros, ilustre juiz de direito da comarca de Aracruz dos tempos idos, é quem nos dá notícias da Visita Pastoral do primeiro bispo do Espírito Santo aos municípios de Aracruz, Ibiraçu e João Neiva e de uma pendenga havida entre dois distintos cavalheiros de Aracruz.

 

O Revmo. Senhor Bispo Dom João Batista Correia Néri tomou posse como primeiro bispo da diocese do Espírito Santo no ano de 1897 e, logo a seguir iniciou uma série de visitas por todo o estado. Esteve em nossa região de 09 a 25 de junho de 1900 o Revmo. Senhor Bispo em Visita Pastoral por todas as localidades à época existentes nos três municípios.

 

Depois de passar alguns dias na sede de Ibiraçu, onde esteve hospedado na casa da Sra. Giacinta Ghidetti, chegou Sua Exa. Revma. ao distrito de Pendanga, no mesmo município. Da comitiva do Sr. Bispo fazia parte nosso juiz Dr. Medeiros.

 

A comitiva episcopal passou pela chiesetta de Santo Antônio e foi recebida na residência do Sr. Giovanni Menegaz, onde distintas pessoas da sociedade ibiraçuense a esperava. Em sua crônica sobre a visita, no contexto da chegada à residência da família Menegaz, em Pendanga, esclarece o Dr. João Gonçalves de Medeiros a origem do nome da localidade.

 

Fato é que, ainda antes do início da imigração italiana, o distinto Tenente-Coronel José Alves da Cunha Bastos era grande latifundiário em nosso município e em Ibiraçu. Ele nasceu em Portugal e imigrou para o Brasil ainda jovem. Já estava em Aracruz quando ainda pertencia ao antigo município de Nova Almeida. Trabalhou em prol da emancipação e teve uma intensa vida política no novo município, à época denominado Santa Cruz.

 

Era o típico “coronel” dos tempos antigos. Foi empreiteiro e construtor da primeira e da segunda “Casa da Câmara” do município, construtor do Chafariz do Tanque, vereador, delegado literário, juiz de paz, substituto de juiz municipal e de órfãos, membro da comissão de recepção do Imperador Dom Pedro II, em 1860, além de haver ganhado dinheiro também com o comércio de escravos. Possuía uma sesmaria de terras que se estendia desde o local chamado Morobá, ao sul do Saguaçu para a margem do rio Piraquê-açu.

 

O laborioso Pietro Tabacchi era italiano, originário da região do Trento, de onde veio possivelmente devido a falência dos seus negócios lá e foi o primeiro italiano a se estabelecer em Aracruz, aqui chegando por volta de 1851, onde adquiriu a vasta “Fazenda Monte delle Palme”, hoje chamada Fazenda das Palmas. Também foi comerciante em Santa Cruz, onde teve uma venda.

 

Logo após sua chegada ao Espírito Santo tornou-se “abatedor de jacarandá” e a extração dessa madeira foi o principal mote da sua negociação com o governo imperial, a partir de 1871 para a importação de mão-de-obra estrangeira. Tornou-se o pioneiro da imigração italiana em massa para o Brasil com a Expedição Tabacchi, chegada ao Brasil em 21 de fevereiro de 1874, e a criação da “Colônia Nova Trento”.

Tabacchi e o Tenente-Coronel Cunha Bastos eram grandes negociantes que trabalhavam com a extração do jacarandá das matas da região para exportação, atividade que, à época, rendia muito dinheiro a esses fazendeiros.

 

Certo dia, partiram de um lado os trabalhadores da fazenda do Tenente-Coronel Cunha Bastos, de Saguaçu em direção ao interior e, de outro lado, partiram os trabalhadores da fazenda do italiano Tabacchi, de Córrego Fundo também em direção ao interior.

 

Naquele tempo, em que não existia GPS e em que as divisas eram traçadas pelas vertentes ou córregos, as duas frentes de trabalho seguiam extraindo jacarandás até se encontrarem próximo ao local onde, anos depois, foi construída a casa da família Menegaz, em Pendenga.

 

Num determinado dia do ano de 1870, comunicados pelos feitores, chegaram ao local ambos os fazendeiros e ali, naquela várzea existente entre as terras que viriam a pertencer a Giovanni Menegaz e a atual capela da Sagrada Família ocorreu a pendenga entre o italiano Tabacchi e o Tenente-Coronel Cunha Bastos.

 

O bate-boca esteve agressivo e acalorado. No conflito de interesses Tabacchi dizia ser o verdadeiro dono e com direito sobre as terras e à exploração dos jacarandás nas mesmas; de outro lado, o português Cunha Bastos retrucava dizendo que a ele pertencia o direito de explorar o jacarandá. A discussão esteve exaltada, de maneira que, por pouco, não chegaram às vias de fato.

 

Acompanhando o Sr. Bispo em Visita Pastoral trinta anos depois e, ao passarem por Pendanga, o palco da discórdia entre os notáveis senhores, local então já colonizado pelos bravos italianos que haviam construído inclusive a capela da Sagrada Família, que o Sr. Bispo também iria visitar, o Dr. Medeiros recorda o fato em companhia de moradores do local e outros da região naquele distante 20 de junho de 1900: Sr. Giovanni Menegaz, D. Giacinta Ghidetti, D. Giuseppina Musso, D. Aida Gabrielli, DD. Lucia e Maria Rebuzzi e Sr. Luigi Musso.

 

O Dr. João Gonçalves de Medeiros é autor de alguns estudos sobre a história de Aracruz e aqui chegou em janeiro de 1899, quando tomou posse como juiz de direito da comarca. Aqui residiu por muitos anos, inclusive após a extinção da comarca, ocorrida no ano de 1910, tendo falecido no dia 19 de janeiro de 1912, já aposentado.

 

É ele que nos diz sobre a origem certa do nome de Pendanga: variação de pendenga, em virtude da questão havida entre o italiano Tabacchi e o Tenente-Coronel Cunha Bastos pela extração dos jacarandás no território do município de Ibiraçu. O local posteriormente foi colonizado por imigrantes italianos. A povoação, em 1933, foi elevada a vila com a criação do distrito de mesmo nome pertencente ao município de Ibiraçu.

 

O autor é advogado, membro do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo – IHGES e da Sociedade Brasileira de Estudos do Oitocentos – CEO

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