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22/12/2015
Aquele pedaço de pizza | Pedro Valls Feu Rosa

Lembra-se daquele pedaço de pizza que sobrou do último jantar e que acabou no lixo? E daquele pãozinho comprado a mais, que no dia seguinte foi jogado fora? Pois é: você não foi a primeira e nem terá sido a última pessoa a descartar algum alimento.

 

O problema é que você – assim como eu – não está só. Pelo planeta afora existem bilhões de outras pessoas fazendo a mesma coisa. E aí aquele insignificante pedaço de pizza adquire contornos inimagináveis. Por exemplo: a cada ano a quantidade de comida desperdiçada só nos Estados Unidos da América seria suficiente para alimentar dois bilhões de famintos no mesmo período – dois bilhões de seres humanos ao longo de todo um ano!

 

Quer mais um exemplo? Só com os alimentos desperdiçados nos EUA e Europa seria possível alimentar todo o planeta três vezes! Seria o fim da fome e o início de uma era de fartura – e para tal não seria necessário o plantio de sequer um vegetal a mais. Que tal pensarmos sobre isso diante da propaganda de que precisamos duplicar nossa produção de alimentos até 2050? Que tal meditarmos sobre a real necessidade de tantos produtos químicos e de tanta mecanização na agricultura? Afinal, é nosso organismo a pagar a conta: no corpo de um norte-americano médio, por exemplo, estão presentes 13 defensivos agrícolas.

 

Fala-se muito em poluição. Pois bem: que tal tirarmos 25% dos carros das ruas sem, no entanto, retirarmos de circulação sequer um deles? Acredite, se o desperdício de alimentos acabasse deixaríamos de lançar na atmosfera o equivalente a um quarto do gás carbônico emitido por nossa frota de veículos.

 

Estes números chocam? Então vamos a outros: 40% de toda a comida produzida nos EUA são desperdiçados. No Reino Unido, 30,8%. E aqui no Brasil, segundo cálculos realizados pela ONU/FAO, 64% de tudo que é plantado terminam na lata de lixo – isto representa quase 1,4% do PIB nacional e seria suficiente para alimentar oito milhões de pessoas carentes durante todo um ano.

 

O caso do Reino Unido tem números curiosos: naquele país o desperdício de comida equivale a 11,3 bilhões de Euros, e o que vai parar no lixo equivale a 70 quilos por habitante. Imagine só: cada inglês joga no lixo 70 quilos de boa comida a cada ano!

 

Mas falemos de ecologia – do uso racional de recursos hídricos, por exemplo. Você sabia que o desperdício de alimentos nos EUA responde pelo consumo de um quarto de toda a água tratada naquele país? No que toca ao petróleo, são 300 milhões de barris indo parar literalmente na lata de lixo todos os anos, juntamente com toda aquela comida própria para consumo que não é consumida.

 

Se você já está com a consciência pesada por conta daquele pedaço de pizza, busque consolo no fato de que os consumidores finais representam não mais que 60% na conta do desperdício. Os outros 40% desta fatura ficam com os meios de produção e distribuição, praticamente em partes iguais.

 

É quando chegamos à famosa frase de Roberto Campos, segundo quem “o mundo será salvo muito mais pela eficiência do que pela caridade”. Diante deste quadro, que tal passarmos a considerar a infraestrutura de transportes como um dos mais sérios problemas nacionais? Afinal, já passou da hora de o Brasil entrar – literalmente – nos trilhos!

 

Quanto aos demais problemas, ficamos com Madre Teresa de Calcutá: para que a miséria deixe de existir no mundo, apenas duas coisas precisam melhorar – eu e você. Assim, da próxima vez pedirei uma pizza menor.

 

O autor é desembargador

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