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16/10/2015
O Brasil que não conhece fronteiras | Pedro Valls Feu Rosa

Há alguns dias li um inacreditável relatório sobre a situação das fronteiras do Brasil. Transcrevo, a seguir, alguns trechos que separei por conta dos números neles contidos. Para operar em 16.886 km de fronteiras terrestres, o efetivo da Polícia Federal é de apenas 1.284 servidores. Só para se ter uma ideia, a fronteira dos Estados Unidos com o México conta com um efetivo 20 vezes maior para vigiar uma extensão territorial de aproximadamente 3.140 km. Na vizinha Argentina, cujo Produto Interno Bruto é cinco vezes menor que o brasileiro, a Gendarmeria Nacional conta com cerca de 42 mil policiais”.

 

O autor, em seguida, individualiza algumas situações: “na fronteira do Brasil com o Uruguai, em Aceguá (RS), há apenas um agente de Polícia Federal para fiscalizar cinco rotas (uma rodovia federal e quatro estradas vicinais) de acesso ao interior do país”.

 

Outro exemplo: “no Paraná, a situação é ainda mais grave, onde dezenas de portos clandestinos e estradas rurais são utilizados para o contrabando de drogas, armas e mercadorias para um efetivo de apenas cinco policiais federais, em turnos de 24 horas”.

 

E mais um, absolutamente chocante: “para guarnecer os 1,6 mil km de fronteira entre Brasil, Paraguai e Bolívia, apenas quatro policiais federais se revezam em turnos de 24 horas. Cada policial é responsável (?) pelo controle e fiscalização de uma faixa de 400 km em média”.

 

Já em Rondônia, “a circunscrição da Delegacia de Guajará-Mirim abrange uma faixa fronteiriça de mais de 600 km. Lá apenas dois policiais federais ficam com a impossível missão de controlar o fluxo migratório entre Brasil e Bolívia”.

 

Nos quase três mil quilômetros da linha divisória entre o Brasil e o Peru”, prossegue o relatório, “há apenas três postos da Polícia Federal: em Santa Rosa do Purus (AC), Marechal Thaumaturgo (AC) e Assis Brasil (AC), cada um com apenas dois policiais federais”.

 

Ao ler este relatório recordei-me de outros dados recentes, segundo os quais nossa Marinha tem, para patrulhar os 9.198 km de litoral, 25 embarcações. Se todas elas ficassem permanentemente no mar, o que é impossível, cada uma teria que vigiar nada menos que 367 km de costa. Para piorar as coisas li que 50% destes navios e submarinos estariam imobilizados.

 

Analisemos, agora, algumas consequências mensuráveis deste quadro. Começo pela pesca. Calculou-se, no não tão distante 2001, que o Brasil perde anualmente US$ 500 milhões somente por conta da pesca ilegal.

 

Recordo, em seguida, que todos os anos 38 milhões de aves, répteis e mamíferos são retirados das matas brasileiras para alimentar o contrabando de animais silvestres, que movimenta US$ 1 bilhão e só perde para o comércio ilegal de drogas e de armas – que também comemora, decerto, o abandono das fronteiras.

 

Quando criança tomei conhecimento, nos bancos escolares, de uma campanha governamental denominada “integrar para não entregar”. Se não me falha a memória, buscava-se através dela a proteção das fronteiras e a integração deste país continental.

 

Enquanto isso, nos idos de 1997, conforme amplamente divulgado pela imprensa nacional, militares e diplomatas brasileiros criticaram a criação de uma força de elite pelo Exército dos EUA, denominada “Grupo Verde”, para guardar nossa floresta amazônica.

 

Pois é. E lá está, quase perdido na poeira da história, o sábio conselho de Leonardo da Vinci, segundo quem “é mais fácil resistir no início do que no final”.

 

O autor é desembargador

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