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11/09/2015
Os mercadores do templo | Pedro Valls Feu Rosa

Dia desses li uma interessante frase de Adam Smith: “o homem é um animal que faz barganhas”. Este pensamento me trouxe à memória um outro, de Balzac, segundo quem “as pessoas generosas são más comerciantes”. Comecei a meditar sobre o tema, lembrando-me de recente notícia dando conta de que o aluguel de uma barriga lá na Índia custa em torno de US$ 8 mil. Segundo consta, a procura de mães de aluguel por casais ocidentais tem sido tão grande que este já virou um emprego razoavelmente popular.

 

Falando em medicina, li que médicos norte-americanos cobram entre US$ 1.500 e US$ 25.000 por ano só para fornecer o número do telefone celular, garantia de pronto e imediato atendimento. Ainda sobre medicina, e para quem esteja procurando cobaias humanas, elas custam em média US$ 7.500 – um pouco mais ou um pouco menos, dependendo da possível lesividade dos medicamentos que elas testarão.

 

Mas deixemos a medicina para lá. Falemos de prisões. Acredite: em Santa Ana, na California (EUA), condenados podem pagar por uma cela melhor, limpa, confortável e quieta, sem mais nenhum preso. Isto custa, em média, US$ 90 por noite.

 

Vem também daquele país um emprego que garante US$ 1.000 por dia, com transporte, alojamento e alimentação incluídos. Basta topar ir para a Somália ou Afeganistão participar de tiroteios em nome de alguma empresa privada que tenha contrato com as Forças Armadas.

 

Ainda nos EUA, se você for morador de Washington considere-se eximido de qualquer fila – desde que tenha US$ 36 para pagar por hora a um dedicado caboclo que ficará lá em pé, guardando o seu lugar.

 

Mas voltemos à Índia. Caso você deseje casar-se naquele país e não conheça ninguém para prestigiar a cerimônia, basta telefonar para a empresa “Best Guests Centre”, especializada em alugar convidados para casamentos. Esta empresa contrata atores para se fazerem presentes em qualquer cerimônia, observando vestuário e regras de etiqueta compatíveis com os desejos do cliente. Eles são tão detalhistas que chegam a estudar as famílias dos noivos, para evitar qualquer deslize que possa revelar a razão de suas presenças – o dinheiro!

 

E se você não estiver buscando casamento, contrariando a vontade dos pais? Neste caso, basta ir à China e procurar uma das muitas empresas daquele país que alugam noivas. Funciona assim: no final do ano, quando é da tradição local que os filhos visitem os pais, noivas ou noivos são alugados especificamente para estas visitas. Dizem que todos ficam felizes: os pais iludidos, os filhos que iludem e os atores que ganham dinheiro.

 

Que tal ser celebridade por um dia? Esta é a proposta da empresa “Celeb 4 a Day”, especializada em transformar qualquer um em alguém supostamente famoso por um dia ou dois. Você paga, e ao sair de casa, logo de manhã, terá na sua porta um batalhão de “repórteres” para entrevistá-lo. Ao longo do dia, concederá entrevistas coletivas em lugares públicos, como restaurantes ou até no meio da rua, e será insistentemente abordado por fãs de mentirinha que pedirão seu autógrafo.

 

Encerro esta narrativa mencionando um restaurante lá de Cullera, na Espanha, no qual clientes pagam para ter o direito de xingar os pobres garçons das mais variadas formas. Diante de todos estes exemplos, retirados das páginas de jornais que leio cotidianamente, fico a pensar no novelista Jean Vercors, segundo quem “a humanidade não é um estado a que se ascenda. É uma dignidade que se conquista”.

 

O autor é desembargador

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