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03/11/2014
Sociedade e desenvolvimento | Pedro Valls Feu Rosa

Winston Churchill, certa vez, exclamou que “quem põe panos quentes alimenta um crocodilo na esperança de que o animal o deixará para o fim”. Muitos brasileiros, decididamente, nunca deram ouvidos a tão sábio conselho – vide a belíssima página saída da pena brilhante de Rui Barbosa, tão bem descrevendo a nossa passividade cabocla.

 

Comecemos pela corrupção, que custa à economia brasileira cerca de 5% do PIB. Calculou-se que a redução de apenas 10% no nível de corrupção aumentaria em 50% a renda per capita do brasileiro num período de 25 anos, dado o crescimento da economia – aliás, segundo a ONU, países bem-sucedidos no combate à corrupção podem multiplicar sua riqueza por quatro.

 

Enquanto isso, em mais de 90% dos municípios, segundo a Controladoria Geral da União, há irregularidades em contratos firmados. Todos estes gestores da coisa pública foram eleitos. E lá está, nos mais requintados salões, plenos de pompa e cerimônia, o caboclo assentado sobre os calcanhares, sem desemperrar a língua nem dizer coisa com coisa, cumprimentando as Excelências.

 

Falta dinheiro para o saneamento básico, que só alcança 53% dos brasileiros. Em nosso país, 20 crianças morrem a cada dia por doenças decorrentes da falta de esgoto sanitário – são 600 crianças por mês, ou 3 aviões Boeing lotados. Calculou-se que, a ser mantido o ritmo atual de investimentos, somente em 2122 toda a população será atendida por uma rede de saneamento básico.

 

Neste mesmo Brasil, conforme dados divulgados no ano de 2005, o total de despesas em propaganda dos governos federal, estaduais e municipais somou quase R$ 1 bilhão. Em 2007 o Tribunal de Contas da União identificou 400 obras paralisadas no país após terem consumido R$ 2 bilhões de recursos públicos. No mesmo ano a União gastou R$ 17,4 milhões com festas, homenagens e solenidades promovidas por órgãos públicos. Em todas estas comemorações lá estava, sempre com os joelhos à boca, o caboclo de Rui.

 

Anunciou-se em 2004 que de cada 4 brasileiros com mais de 60 anos 3 são desdentados. Somente em São Paulo 68% dos adultos já perderam todos os dentes. Oito milhões de brasileiros não têm nenhum dente na boca, e cerca de 35% da população nunca foram ao dentista. Em 2001 o Tribunal de Contas da União constatou que a cada duas horas morre uma brasileira grávida, e que 90% destas mortes poderiam ser evitadas se à população carente fossem dadas condições de saúde.

 

Enquanto isso, nos sete primeiros meses de 2008, gastamos R$ 106,8 bilhões apenas com os juros da dívida pública, hoje calculada em R$ 1,4 trilhão. Em 2007 os juros pagos chegaram a R$ 160 bilhões, contra R$ 10,9 bilhões do programa Bolsa-Família. Assistindo a tudo isso sempre ele, o caboclo, sem sentimento de pátria e nem noção de país.

 

Dos 29.798 km de ferrovias que temos, 10 mil foram construídos por D. Pedro II, 7 mil estão inativos e 40% do restante acham-se em estado deficiente. A velocidade média dos nossos trens é de 20 km/h. Por conta disso, desde 1960 mais de 600 mil brasileiros morreram vítimas de acidentes em nossas estradas sobrecarregadas – há algum parente seu dentre eles? A cada um desses acidentes o caboclo “soergue o torso, espia, coça a cabeça, ‘magina’, mas volve à modorra e não dá pelo resto”.

 

Enquanto isso, aproxima-se aquele crocodilo ao qual se referiu Churchill da a cada dia mais acuada Sociedade Brasileira, muitas vezes acorrentada à inércia por um fatalismo cego, tal qual o Jeca Tatu. Acorda, caboclo!

 

O autor é desembargador e ex-presidente do Tribunal de Justiça do Espírito Santo

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