Provincianismo

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Temos uma das mais ricas línguas do planeta. E, no entanto, falar em “intervalo do café” virou algo “brega”. O chique é “coffee break”. Nossos aparelhos eletrônicos, fabricados aqui para nós mesmos, quase nunca tem botões “liga/desliga” – só “on” e “off”. Talvez, no imaginário de alguns, o uso de palavras inglesas nos coloque no tão sonhado primeiro mundo. E neste devaneio nos esquecemos de que 68% dos brasileiros entre 15 e 64 anos não conseguem ler nada além de um anúncio de cinco palavras – que dirá em inglês!

Nosso país vê, com pesar, que 3 a cada 4 de seus filhos com mais de 60 anos são desdentados – somente em São Paulo 68% deles já perderam todos os dentes. Nada menos que 30 milhões de brasileiros nunca foram a um dentista. Mas, se algum dia conseguirem ir, serão atendidos em prédios chamados de “Medical Health Diagnostic Surgery Plaza Center” ou coisa que o valha. É difícil de entender o motivo de tantos endereços em inglês!

O Brasil recebe apenas 0,59% dos turistas que circulam pelo planeta (dados de 2006). No entanto já está difícil encontrar aqui algum hotel com o nome muito diferente de “Resort Convention Palace Comfort Hotels Bureau Business & Inn”.

Se falarmos de endereços residenciais esta realidade não será diferente. Aliás, um estudo do BNDES mostrou a necessidade de reduzirmos nosso déficit habitacional, que já alcança incríveis 8 milhões de moradias. Mas, apesar disso, nossa reconhecida criatividade não funciona na hora de “batizá-los” – lá estão os “Royal Port Residence Service Flat American Tower Building” da vida, construídos por brasileiros em bairros brasileiros e esperando seus moradores brasileiros.

O que mais choca nesta perda de identidade que está transformando nosso país em um subúrbio norte-americano é estar ela sendo promovida não pelo povo mais humilde, mas pela camada mais esclarecida da população – e, pensando bem, teriam mesmo que ser os poucos letrados, já que 68% dos brasileiros mal conseguem falar português.

Um dos mais importantes cientistas sociais do mundo, Immanuel Wallerstein, disse em seu livro “O Declínio do Poder Americano” que a hegemonia dos EUA começa a chegar ao fim. Qual país assumirá o seu lugar? Eu espero que não seja o Butão – nomes de prédios em Dzonga seriam muito difíceis de ler.

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