Lojas fechadas ou mudando de endereço e lojistas endividados: consequências da pandemia em Aracruz

Não há um número oficial de lojas fechadas na cidade, mas a quantidade de estabelecimentos vazios com placa de “aluga-se” preocupa

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Ponto comercial disponível para locação no bairro Bela Vista. Foto: Jasleon Humberto

No Brasil, de acordo com levantamento divulgado no último dia 1° pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), mais de 75 mil estabelecimentos comerciais fecharam as portas em 2020, primeiro ano da pandemia do novo coronavírus. Em Aracruz, isso só não ocorreu de forma impactante porque muitos lojistas, sobretudo dos setores considerados não essenciais, conseguiram negociar contratos de locação, recorreram a financiamentos ou trocaram de ponto comercial. Não há um número oficial de lojas fechadas na cidade, mas a quantidade de estabelecimentos vazios com placa de “aluga-se” preocupa. Afinal, cada estabelecimento fechado representa menos empregos gerados.

Gestores de salas comerciais também sentiram os impactos da crise desencadeada pela pandemia. Muitos dos seus inquilinos – geralmente advogados, microempresários e profissionais da área de saúde – buscaram sair do aluguel investindo em uma sede própria. É o caso do jornal FOLHA DO LITORAL, que transferiu seu escritório administrativo e redação do Edifício Ravenna, no Centro, para o bairro Polivalente.

Administrador do Shopping Oriundi e ex-presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) de Aracruz, Aderjânio Pedroni lembra que “embora o fechamento de lojas seja uma questão natural, uma vez que todo ano há empresários que mudam do segmento ou ingressam nele, a pandemia acentuou essa rotação. Muitos não conseguiram reduzir consideravelmente os custos, renegociar aluguéis ou rolar as dívidas e acabaram tomando a decisão de fechar as portas”.

No contexto da pandemia, entretanto, o grande problema, avalia Aderjânio, é o endividamento dos lojistas, sobretudo dos segmentos bruscamente impactados, como o de moda em geral. “Demissões foram evitadas ao máximo no comércio, afinal não é fácil dispensar uma equipe capacitada e treinada para recomeçar do zero. Isso levou muitos empresários a recorrerem ao Programa Nacional de Apoio às Microempresas e Empresas de Pequeno Porte (Pronampe) e/ou ao financiamento da folha de pagamento. Contudo, as prestações começaram a vencer e o comércio segue sofrendo com medidas restritivas”, enfatiza o empresário, lembrando que em vista dos segmentos que não tiveram suas atividades interrompidas, o comércio varejista sai perdendo e atrasado no que diz respeito ao investimento em inovação.

O endividamento apontado por Aderjânio Pedroni também preocupa o presidente do Sindicato dos Lojistas do Comércio (Sindilojas) de Aracruz, Alcemir José de Bruym. “Além de aluguel, o lojista tem despesas mensais com água, luz e a folha de pagamento. Há oferta de crédito facilitado pelos bancos, mas como ele quita depois? Não está fácil ser lojista em meio a esse cenário de incertezas desencadeado pela pandemia”, avaliou.

Ponto comercial disponível para locação no Centro de Aracruz. Foto: Jasleon Humberto

Alta do IGP-M levou lojas a mudarem de endereço

Os contratos de aluguel que tiveram reajuste anual em fevereiro e correção pelo IGP-M (Índice Geral de Preços-Mercado) trouxeram uma preocupação a mais para os inquilinos. Isso porque, de acordo com a Fundação Getúlio Vargas (FGV), no período entre fevereiro de 2020 e janeiro deste ano, o principal indicador para reajuste do setor imobiliário acumulou alta de 25,71%, o maior percentual dos últimos 18 anos.

Desejando descontos e com dificuldade de negociar aluguéis diante da disparada do IGP-M neste momento de pandemia, muitos lojistas recorreram à mudança de endereço para manter seus empreendimentos e os empregos que eles geram. É o caso de Kely Aliny Neves, que transferiu suas lojas da avenida Venâncio Flores para a rua Ananias Neto. “É a forma que encontrei para seguir vendendo moda com preço justo. Agora em pontos separados, funcionando praticamente uma de frente para a outra, a Kely Kids, no número 64, e a Kely Modas, no número 79, chegam ao endereço que está se transformando em um polo comercial de moda no Centro de Aracruz”, destacou a empresária.

CDL perde associados

De acordo com Aroldo Lopes Rampinelli, presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) de Aracruz, o momento de crise econômica e sanitária levou a entidade a perder associados. Foram 37 baixas na lista desde o início da pandemia. “Isso é consequência das restrições de funcionamento do comércio para combater a covid-19. Contudo, o comércio nunca foi o foco do problema. Não há aglomeração no interior das lojas, que seguem todos os protocolos recomendados pelas autoridades sanitárias. Qual será, então, o verdadeiro motivo para se manter alguns comércios fechados?”, questiona.

Aroldo também pediu valorização ao comércio local. “A gente pede que o morador de Aracruz priorize o comércio da cidade na hora de adquirir um produto ou serviço. Mesmo com restrições, o comerciante local está se esforçando para manter empregos e, mais do que nunca, precisa dessa valorização”, ressaltou.

Sindicomerciários manifesta preocupações

A pandemia também preocupa o Sindicato dos Empregados do Comércio (Sindicomerciários-ES). Diretora da Regional de Aracruz, Márcia Matias destaca especial preocupação com os trabalhadores que atuam em supermercados. “No país, os óbitos de operadores de caixa e repositores de supermercados estão à frente de muitas categorias essenciais. Por isso, o Sindicomerciários-ES promove uma campanha para que a vacinação destes trabalhadores seja priorizada. Se eles são essenciais para serviços que não podem parar na pandemia, devem ter prioridade na imunização contra a covid-19”, apontou.

Márcia Matias também destacou que em Aracruz, o Sindicomerciários-ES, no sentido de preservar os empregos dos trabalhadores do comércio, tem feito gestões junto às empresas, sobretudo, para que elas propusessem férias aos comerciários neste período acentuado de restrições. “É uma medida que também gera renda”, considerou a diretora, apontando preocupação com demissões. “Em julho do ano passado, a previsão era de 26 mil demissões no comércio do Estado, mas, com a medida provisória que suspendeu contratos e reduziu jornadas, esse número foi menor. Agora, o trabalhador não dispõe mais desse mecanismo de proteção e a estimativa é que as demissões se acentuem com os desligamentos historicamente elevados nos meses de janeiro e fevereiro”.

Movimento do comércio cai em Aracruz

Com base na estimativa captada junto às lideranças do comércio de Aracruz, o secretário municipal de Desenvolvimento Econômico, José Eduardo Faria de Azevedo, calcula queda em torno de 15% no movimento do comércio da cidade no primeiro trimestre deste ano. “Do ponto de vista das condições do município, temos motivos para ser otimistas na recuperação deste e do próximo ano. Claro que não dependemos somente do ambiente da cidade de Aracruz, pois estamos em uma crise de saúde pública que envolve o Brasil inteiro. Para a economia voltar a rodar de uma forma melhor, o ponto principal é a vacinação contra a covid-19. A expectativa, portanto, é de que o Governo Federal consiga acelerar a disponibilização das doses e que elas cheguem o quanto antes à população economicamente ativa. É preciso também que duas políticas importantes – a de crédito e apoio ao empreendedor e a de amparo social – funcionem bem”, considerou.

José Eduardo também defende que o Governo Federal reedite o programa de redução de jornada e salário ou suspensão de contrato. “Ao evitar demissões por causa do agravamento da pandemia, essas medidas contribuíram para que Aracruz não ficasse com saldo negativo no Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) este ano, uma vez que o setor de comércio está procurando ao máximo manter a atividade e os empregos que gera. Esse ‘socorro às empresas’ foi importante no ano passado e será importante neste ano também”, enfatizou.

Nossocrédito registra crescimento em operações

O esforço de microempreendedores individuais (MEI) e de micros e pequenas empresas para se manter em atividade, preservando ao máximo os empregos que geram, é percebido pelo aumento da procura pela oferta de crédito na Sala do Empreendedor, em Aracruz. De acordo com o secretário municipal de Desenvolvimento Econômico, José Eduardo Faria de Azevedo, as operações do Nossocrédito cresceram 18% no primeiro trimestre deste ano em comparação com o mesmo período no ano passado. Em valores arredondados, a soma das operações aprovadas pelo programa de microcrédito saltou de R$ 497 mil, no primeiro trimestre de 2020, para R$ 588 mil, no primeiro trimestre de 2021.

A expectativa para os próximos três meses é de que a procura pelos serviços da Sala do Empreendedor cresça ainda mais. Inclusive, a secretaria municipal de Desenvolvimento Econômico disponibilizou um número de WhatsApp (27 99795-9087) e um e-mail ([email protected]) para que MEI’s e micros e pequenos empresários possam esclarecer dúvidas. O “plantão virtual” funciona de segunda a sábado, de 9h às 18h.

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