Flint e Vitória

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Você já ouviu falar de Flint? Trata-se da sétima maior cidade de Michigan (EUA). Sua economia gravita em torno de empresas que lá se instalaram por conta de generosos benefícios fiscais. Como elas apenas necessitam, no mais das vezes, de mão-de-obra pouco qualificada, 41,6% de seus habitantes vivem abaixo da linha da pobreza.
Eis que, em um dado dia, uma destas empresas – a maior delas, uma montadora de veículos – detectou que a água fornecida pela rede pública causava ferrugem em seus produtos, sendo contaminada e imprópria até para uso industrial.
A situação foi resolvida da seguinte forma: a montadora de veículos recebeu ajuda das autoridades municipais para passar a receber água da vizinha cidade de Detroit. Problema resolvido!
Enquanto isso a população continuava a usar e beber daquela água imprópria, recordemos, até para uso industrial. Somente um ano depois, por conta de uma verdadeira epidemia de doenças relacionadas à contaminação da água, o caso transformou-se em um escândalo.
Constatou-se, então, que os habitantes da cidade estavam expostos a diversas toxinas – e vários morreram por conta delas. Nove mil crianças apresentavam sintomas de intoxicação por chumbo, com consequentes danos ao cérebro.
Diante da repercussão negativa em nível nacional, finalmente movimentaram-se as autoridades: o povo de Flint passou, então, a receber aquela mesma água lá de Detroit, consumida pela montadora de automóveis, adequada para uso industrial e humano.
Lembrei-me deste episódio ao ler uma tese de doutorado apresentada à USP, desenvolvida em torno do ar daqui de Vitória. Transcrevo algumas conclusões: “As prevalências de sintomas respiratórios encontradas foram elevadas em Jardim Camburi e Jardim da Penha, quando comparadas a estudos nacionais e internacionais”. “Foi encontrada uma associação entre proximidade da indústria, contribuição industrial à poluição e sintoma respiratório no bairro de Jardim Camburi”.
Pense, agora, em quantas crianças daqui estão sofrendo por conta de doenças respiratórias as mais diversas. Calcule quantos dias de vida você terá a menos por conta dos resíduos industriais aspirados para seu pulmão. E lembre, com as vítimas de Flint, da famosa frase de Henry Ford: “amar o povo é fácil, o difícil é amar o próximo”.

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