A criança de Omelas

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Dia desses tive a oportunidade de ler, pela pena brilhante da escritora norte-americana Ursula Le Guin, algumas interessantes linhas sobre “aqueles que fogem de Omelas” – eis aí o título de sua obra.

Dizem, e tento resumir o texto, que a vida na cidade de Omelas era um paraíso. As pessoas eram felizes, tinham tudo que desejavam e aproveitavam ao máximo a vida. Havia apenas um porém – um segredo vergonhoso, materializado em uma criança mantida em um porão, na miséria, sob tortura e sofrimentos outros.

A autora do texto não nos diz, em momento algum, o que aquela infeliz criança fez para merecer tão cruel condenação – apenas realça ser o seu martírio necessário para a felicidade de Omelas. Registra que, caso a criança fosse libertada, tudo que fazia a cidade feliz, pacífica e segura desapareceria.

Todos sabem que ela está lá, todo o povo de Omelas”, escreve. “Alguns vão lá vê-la. Outros se contentam em apenas saber que ela está lá. Todos sabem que ela tem que estar lá. Alguns entendem o motivo, outros não, mas todos compreendem que sua felicidade, a beleza de sua cidade, a suavidade de seus relacionamentos, a saúde de suas crianças, a sabedoria de seus estudantes, o engenho de seus trabalhadores e até a abundância de suas colheitas e a serenidade do céu dependem exclusivamente da abominável miséria daquela criança”.

A maioria aceitava este informal contrato social como garantia de sua felicidade. Mas nem todos estavam satisfeitos com este estado de coisas – e assim, não podendo contemplar omissos a injustiça, deixavam a cidade.

Eles deixavam Omelas, seguindo rumo ao desconhecido, e não voltavam mais. O lugar para o qual se dirigiam é ainda mais inimaginável para a maioria de nós que a cidade da felicidade. Não posso descrevê-lo. É possível que nem exista. Mas eles parecem saber o rumo a ser seguido, aqueles que abandonam Omelas”.

Não há necessidade alguma de um mergulho na imaginação para visitarmos o porão no qual aprisionada aquela pobre criança, vítima de um absurdo contrato social – basta irmos às periferias de nossas maiores cidades, e lá estará ela, denunciando, com seus gemidos, nossa omissão.

São bolsões de pobreza nos quais a ausência do Estado é quase total – as autoridades lá não entram, dado estar o território entregue a marginais. Daí decorre a falta quase que total de saúde, saneamento, educação e, principalmente, de esperança, este tão necessário combustível de nossas almas.

Quando as crianças do porão se atrevem a alguma escapadela, invariavelmente encontram a brutalidade das barreiras que lhes são impostas pela majestade das leis que, na fina ironia de Anatole France, proíbem tanto os ricos como os pobres de dormir debaixo da ponte. Que retornem, pois, ao porão de onde saíram!

Alguns não se conformam com este quadro, tão ilógico quanto absurdo. Ousam defender que a melhor política de segurança pública seria levar o Estado, através de suas instituições, a cada ruela de cada porão, digo, favela miserável – e não nos faltam recursos para tanto.

Se atrevem, vejam só, a delirar que enquanto não eliminarmos os porões, digo, cinturões de miséria e abandono que se formam ao redor de nossas tão decadentes metrópoles, dentro em breve não haverá – se é que já não há – aparato de defesa ou celas em número suficiente, e perigará nossa tão frágil, e apenas aparente, felicidade. Aliás, você conhece alguma vítima deste quadro?

Mas não os ouvimos! Que o digam nossas masmorras, povoadas em sua quase totalidade pelas crianças do porão de Omelas, com a ressalva de algumas raríssimas exceções que apenas existem para conforto de nossos espíritos, felizes com a aparência de que realmente as leis são iguais para todos.

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