1989 a 2003 – quando o Espírito Santo foi tomado pela corrupção e violência

Sua tese principal é que houve uma rede de corrupção profundamente acobertada pelo sistema judiciário que, por anos, prejudicou a Justiça e a integridade do Estado

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A obra que revive este triste momento da história capixaba será lançada hoje 5/12, às 18h, na Assembleia Legislativa, no Auditório Hermógenes Lima Fonseca, por iniciativa da Comissão de Segurança e Combate ao Crime Organizado, presidida pelo deputado Delegado Danilo Bahiense

Danilo Sérgio Salvadeo, 74, jornalista, autor do livro “Máfia Capixaba”, apresenta uma investigação meticulosa sobre o que foram os violentos anos 90 e início dos anos 2000 no Espírito Santo, um período de 14 anos (1989 a 2003) de crimes impunes e muita corrupção nos poderes constituídos (Executivo, Legislativo e Judiciário). Sua tese principal é que houve uma rede de corrupção profundamente acobertada pelo sistema judiciário que, por anos, prejudicou a Justiça e a integridade do Estado.

A trama se desenrola em torno de escândalos de corrupção, particularmente envolvendo empresários, políticos com e sem mandatos, delegados de Polícia, juízes, desembargadores e até um governador. O enredo se concentra nas investigações, prisões e processos judiciais relacionados a esses escândalos, tendo por trás o braço armado do Crime Organizado no Estado naquela época, a Scuderie Detective Le Coq.

Salvadeo destaca que “este livro-reportagem foi inspirado em fatos conhecidos e pretende ser um retrato fiel da realidade e não usado para determinar responsabilidade legal, pois a verdade processual sobre os fatos nele narrados encontra-se em vários autos”, lembrando que a menção aos nomes dos envolvidos, por já terem sido amplamente divulgados desde as ocorrências dos crimes, não configura uma violação do direito ao esquecimento, na avaliação de Wolfgang Sarlet, coordenador do programa de pós-graduação em Direito da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUC-RS e autor do livro “O direito ao Esquecimento na Sociedade da Informação”.

Desde que as prisões preventivas dos ex-PMs foram decretadas e o processo, a partir dos depoimentos deles, fardados, ao juiz Márcio Mont’Alegre Públio de Souza, no Fórum de Porto Seguro, até a prescrição, foi um ‘festival de inverdades e ‘chicanas’ jurídicas para desmoralizar o dossiê do ex-PM Rubens Banhos, a família da vítima e até as reportagens de A Gazeta, chegando ao absurdo do juiz Márcio Mont’Alegre – três anos depois afastado da função e preso por acobertar traficantes de cocaína que agiam no paraíso baiano – ter processado o jornalista Danilo Salvadeo por danos morais (a ação foi julgada improcedente pela Justiça do Espírito Santo).

O motivo foi uma reportagem publicada em A Gazeta no dia 20 de abril de 1991, na página 15, informando que o delegado regional de Porto Seguro, Jackson Silva, acusou o juiz de ter recebido Cr$ 3 milhões (R$ 109.091,00) para supostamente dirigir o interrogatório em favor dos réus, visando facilitar uma futura absolvição em caso de julgamento. O recorte do jornal faz parte do volume 2 do processo.

Opinião
O autor faz um resumo da obra: “Se eu tivesse escrito este livro-reportagem como ficção, quem sabe não teria ido longe demais da realidade? No entanto, os fatos, meticulosamente pesquisados ao longo de cinco anos, falam por si próprios. Eu vivenciei pelo menos uns 70% do que é narrado no livro, pesquisando para reportagens que fiz no jornal A Gazeta. Os crimes cometidos pela Máfia Capixaba – aí abordei também, dentro do que foi surgindo ao longo dos anos, a velha e a nova máfia no Espírito Santo – não eram apenas um desejo de riqueza, mas uma insana busca pelo poder corrupto”.

E completa: “Para escrever a obra, mergulhei no volumoso inquérito de 20 volumes elaborado pela Polícia Civil da Bahia, e cedido por José Maria Miguel Feu Rosa Filho, que sentiu na carne a perda de seu pai, assassinado brutalmente por esses mafiosos. O que fui descobrindo ao longo de minhas investigações jornalísticas, conversando com criminosos, testemunhas, parentes e amigos das vítimas foi estarrecedor. Uma teia de corrupção, crimes de mando, ameaças etc. Não podia, em respeito às inúmeras vítimas, deixar esta história cair no esquecimento. Fui ameaçado na época e busquei proteção policial. Se a Justiça dos Homens falhou, a Divina, não! De uma forma ou outra, todos pagaram…”.

Obs. A obra que revive este triste momento da história capixaba será lançada hoje 5/12, às 18h, na Assembleia Legislativa, no Auditório Hermógenes Lima Fonseca, por iniciativa da Comissão de Segurança e Combate ao Crime Organizado, presidida pelo deputado Delegado Danilo Bahiense.

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